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Vem aí mais uma Black Friday

A Black Friday, que este ano terá lugar no próximo dia 27 de novembro, transformou-se no maior motor do comércio global, capaz de esgotar plataformas de vendas e gerar autênticas maratonas de consumo. Mas o que hoje parece um ritual inevitável de caça aos descontos começou, na verdade, como tudo de forma mais discreta. Para perceber o impacto real deste dia, é preciso recuar no tempo e analisar as duas faces da mesma moeda: o que ganham (e perdem) os consumidores e os gigantes do retalho.

Há quem diga que a expressão foi usada pela primeira vez por alturas de uma crise na bolsa de Wall Street em 1869, quando dois investidores tentaram controlar o mercado do ouro nos EUA, provocando a falência de milhares de pessoas numa sexta-feira de setembro. Já outros apontam para os anos 50 do século XX, quando os polícias da cidade de Filadélfia adotaram a expressão com desespero. Usavam-na para descrever a sexta-feira negra de trânsito e o caos absoluto que se vivia no dia seguinte ao de Ação de Graças, quando a cidade ficava inundada por turistas para o jogo de futebol americano entre o Exército e a Marinha.

Entretanto, uma coisa é certa, nos anos 80 do século passado, numa jogada de marketing, os lojistas americanos decidiram dar a volta ao texto. Lançaram a ideia de que este era o dia em que os livros contabilísticos saíam do "vermelho" (prejuízo) e passavam para o "preto" (lucro). Estava lançado o Marketing.

Claro está que, para os consumidores, para quem compra, a Black Friday é o equivalente a um campeonato de oportunidades. Mas será que compensa sempre?

Do lado das vantagens para os consumidores poderemos dizer que é a janela ideal para comprar aquela tecnologia ou eletrodoméstico que, a preço normal, estaria fora do orçamento. Permite ainda, para quem gosta de planear com tempo, efetuar as compras de Natal em novembro, poupando tempo, stress e dinheiro. Finalmente, na luta pela conquista do mercado, as marcas não cortam só nos preços; oferecem portes grátis, extensões de garantia e facilidades de pagamento exclusivas.

Já do lado das desvantagens, pode referir-se a chamada "metade do dobro", ou seja, o maior perigo continua a ser a inflação artificial dos preços semanas antes do evento, camuflando falsos descontos que exigem ferramentas de comparação de preços em tempo real. Os consumidores devem, pois, estar especialmente atentos. De referir ainda o chamado “gatilho da urgência”, ou seja, aquelas mensagens subliminares apontando para o relógio e para os avisos das "últimas unidades" criando ansiedade e empurrando o consumidor para compras por impulso e despesas desnecessárias.

Já do ponto de vista das empresas esta é uma operação de alto risco em que, por um lado, permite uma Injeção de oxigénio financeiro: É o momento de pico de faturação que, muitas vezes, salva o balanço financeiro do ano inteiro, permite também fazer a limpeza dos armazéns, ou seja é uma oportunidade cirúrgica para escoar stocks e abrir espaço para as novidades da época natalícia e por último pode ser um íman para captar novos clientes: os descontos serve de isco para atrair consumidores que, se ficarem bem impressionados, podem voltar a comprar ao longo do ano.

Contudo, do outro lado da moeda temos o esmagamento das margens. Vender muito não significa, necessariamente, lucrar muito. Para oferecer descontos agressivos, as empresas sacrificam a margem de lucro por produto. Representa ainda um verdadeiro Pesadelo logístico: O pico de acessos deita sites abaixo e coloca as transportadoras sob uma pressão brutal. Um atraso na entrega pode destruir a reputação de uma marca num piscar de olhos.

Por fim, mas não por último, podemos ainda dizer que esta data representa do ponto de vista meramente comercial uma desvalorização da época de Natal. Existe o risco real de os clientes comprarem tudo na Black Friday e deixarem o mês de dezembro completamente deserto.

Fernando Viana

Fernando Viana

7 novembro 2026