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A beleza da memória e o desenvolvimento local

A beleza é um dos conceitos mais antigos e difíceis de definir. Pode residir na harmonia das formas, na perfeição das proporções ou na emoção que uma obra desperta. Mas existe uma beleza que o tempo não consegue apagar: a beleza da memória.

O património é a expressão dessa memória coletiva, testemunho da inteligência, criatividade e sensibilidade das gerações que nos antecederam. É neste contexto que a arqueologia assume particular importância. Cada vestígio descoberto, desde uma simples cerâmica a uma construção antiga, acrescenta conhecimento sobre a vida, os costumes, as crenças e a evolução das comunidades. A história não se escreve apenas através dos grandes acontecimentos, mas também nas pequenas marcas deixadas pelo quotidiano.

As belas-artes, através da escultura, da pintura e da arquitetura, constituem igualmente manifestações extraordinárias dessa memória. Transformam a matéria em cultura e a técnica em beleza. Na arquitetura, em particular, a ornamentação – capitéis, colunas, frisos, azulejos, varandas e cantarias – ultrapassa a simples função decorativa, revelando a identidade, o talento e os valores das sociedades que a produziram.

A arquitetura tradicional portuguesa representa uma síntese notável entre utilidade, beleza e permanência. Aldeias, casas senhoriais, moinhos, pontes, igrejas e edifícios populares testemunham a sabedoria construtiva dos nossos antepassados, que utilizavam os recursos locais e edificavam para durar, o que hoje poucas vezes acontece. São memória viva e parte essencial da identidade dos territórios. Porém, a arquitetura nunca se limitou a responder às necessidades funcionais da habitação ou da proteção. Sempre procurou elevar-se através da beleza.

Num tempo em que muitas construções obedecem à rapidez e à economia imediata, importa questionar que património deixaremos às gerações futuras. Preservar os edifícios históricos não significa apenas conservar pedras e fachadas: significa proteger a história e a identidade de um povo.

Foi esta visão que orientou grande parte do trabalho desenvolvido pela ATAHCA – Associação de Desenvolvimento das Terras Altas do Homem, Cávado e Ave. Ao longo de décadas, promoveu a recuperação do património histórico e cultural, a valorização dos espaços públicos, das tradições e dos recursos locais, contribuindo para devolver vida aos territórios e reforçar o orgulho das comunidades na sua identidade.

Este trabalho encontrou na Abordagem LEADER um instrumento fundamental. Ao confiar nas populações e nos Grupos de Ação Local a definição das estratégias de desenvolvimento, a União Europeia reconheceu que o futuro do mundo rural se constrói com a participação das comunidades e a valorização dos seus recursos.

Ao longo de mais de três décadas, o LEADER apoiou a recuperação patrimonial, o empreendedorismo, as pequenas empresas, os agricultores, os produtos endógenos, o turismo de cariz rural, a criação de emprego, a inovação e a preservação das tradições. Contribuiu, assim, para transformar património em oportunidade e identidade em desenvolvimento.

Perante o despovoamento, o envelhecimento e a desertificação económica, torna-se indispensável que Portugal e a União Europeia continuem a acreditar nesta abordagem, reforçando o apoio às Associações de Desenvolvimento Local e aos Grupos de Ação Local. São estruturas de proximidade que conhecem os territórios e têm demonstrado que o desenvolvimento sustentável nasce da valorização das pessoas, da cultura e do património.

A verdadeira beleza não reside apenas numa obra de arte ou num edifício. Está também na capacidade de cada geração preservar aquilo que recebeu, enriquecê-lo e transmiti-lo às gerações seguintes.

A arqueologia revela as nossas raízes, as belas-artes testemunham a criatividade humana e o património construído recorda-nos o valor da permanência. O desenvolvimento local demonstra que preservar a memória também gera riqueza, emprego e esperança.

Porque um povo sem memória será sempre um povo sem futuro.

José da Mota Alves

José da Mota Alves

7 novembro 2026