O mito presentemente em apreço decorre de se misturar uma ideia com, neste caso, a sua formulação mais tradicional. Em concreto: a noção de que a humanidade, como um todo, estava ferida na sua natureza, com o conceptualizado e teologicamente plasmado por Agostinho de Hipona no fim do séc. IV e começos do seguinte (e mesmo que, entretanto, essa sua teorização já não seja assumida acriticamente nos nossos dias).
É um facto que, até esse autor, se deu mais importância ao livre-arbítrio humano e a uma noção de que a mencionada ferida era mais a consequência de realidades espirituais do que de uma culpabilidade jurídica (posição assaz próxima das teses gnósticas, sobretudo as que orbitavam uma suposta maldade intrínseca à natureza humana devido à sua vertente material, que ainda estavam a ser combatidas).
Todavia, há evidências claras de que posições teológicas análogas já estavam presentes em quase todo o arco geográfico de proveniência de textos teológicos da Grande Igreja no Século III. E isto, mesmo quando, no Ocidente, se dava mais atenção a uma culpa hereditária desde Adão que precisava de ser absolvida por procedimentos como que judiciais, e, no Oriente, às doenças espirituais causadas pelos vícios, sendo que não se considerava que o pecado de Adão tivesse feito com que cada ser humano nascesse como réu.
Tal como tenho tido a felicidade de já poder fazer nos mais recentes textos desta rubrica, e devido à existência de fontes textuais que desmontam por si mesmas os mitos que tenho vindo a apresentar, creio que o mais oportuno é ilustrar o que mencionei, seja pelo elenco de algumas das mais importantes dessas fontes que se referem ao mito atual, seja pela posterior apresentação umas citações mais relevantes.
Ora bem, no Ocidente posso asseverar que aquelas posições teológicas estão presentes em: Tertuliano de Cartago, “Acerca da Alma”, 40 e 41 (de cerca de 210) e “Acerca da Ressurreição da Carne”, 49; Comodiano, “Instruções”, 1, 35 (escrito perto de 250); e Cipriano de Cartago, “Carta [64] a Fido”, 5 (de 253) e "Sobre o Bem da Paciência", 11 (de 256).
Uma citação elucidativa é a que encontramos em Tertuliano de Cartago, “Acerca da Alma”, 41: «o mal da alma, além daquele que lhe advém por obra do diabo, antecede-a a partir do vício de origem, sendo de certo modo natural. Pois, como dissemos, a corrupção da natureza é uma segunda natureza».
Acerca do Oriente, as fontes que garantidamente apresentam as ditas teses doutrinais, fruto de uma certa perspetiva mais positiva e de um foco em outras preocupações teológicas, são pouquíssimas e resumem-se a Orígenes de Alexandria, “Comentário acerca da ‘Carta aos Romanos’”, 5, 9 (composto por volta de 246), “Homilias sobre o ‘Livro do Levítico’”, 8 (de 241) e “Homilias sobre o ‘Evangelho de Lucas’”, 14 (de cerca de 237); e Metódio de Olimpo, “O Simpósio”, 2, 6 (de aproximadamente 290).
Como citação, posso apresentar o escrito por Orígenes em “Comentário acerca da ‘Carta aos Romanos’”, 5, 9: «Pois aqueles a quem foram entregues os segredos dos mistérios divinos sabem que há em todas as pessoas as sujidades inatas do pecado, que devem ser lavadas pela água e pelo Espírito. Por conta dessas impurezas, o próprio corpo é chamado de corpo do pecado».