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Entre a utopia e o plano

Sete países estão na corrida aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2036: Alemanha, Coreia do Sul, Turquia, Hungria, África do Sul, Catar e Índia. Há dias, um grupo de pessoas apresentou ao Governo uma proposta de candidatura de Lisboa, admitindo apontar a 2040 ou 2044 se 2036 não fosse viável, e, claro, para este último ano seria de todo impossível. Mas 2036 é também o horizonte do primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo, com 44 medidas e um investimento anunciado de 130 milhões de euros. Duas formas de olhar para a mesma data: como uma festa ou como o prazo para cumprir um plano.

Li recentemente, na rubrica «Da Realidade à Utopia», uma reflexão que convida a olhar para a utopia não como um lugar inalcançável, mas como o percurso entre o sistema que temos e aquele que somos capazes de construir. Parece-me um bom ponto de partida. Mas há utopias que são rumo e utopias que são fuga. Pensar hoje em Jogos Olímpicos e Paralímpicos em Lisboa é uma fuga sem sentido: revela por vezes desconhecimento do que é organizar o evento de maior impacto à escala global e do estado real do nosso sistema desportivo, e ocupa o debate com um sonho enquanto o essencial fica por fazer.

Não nos podemos esquecer de que, em Portugal, quando se fala em desporto, o essencial passa pelas federações e pela coordenação do setor. Os eventos multidesportivos podem fazer a diferença, não como um fim em si mesmo, mas como instrumento da própria reforma. Promovem o trabalho conjunto das federações com o Governo, os municípios, os comités olímpico e paralímpico, as universidades, a comunicação social e os patrocinadores, e levam-nas a profissionalizar a gestão, a formar pessoas e a prestar contas de resultados mensuráveis, algo que deveria acontecer com mais frequência no dia a dia. E podem ser pensados para o país inteiro.

Portugal vai receber eventos mundiais e continentais de grande escala nos próximos anos, não apenas no futebol, mas também noutras modalidades, olímpicas e não olímpicas, nos desportos de praia e em eventos multidesportivos universitários, europeus e mundiais, que não se ficarão pelas cidades de Lisboa e do Porto. Com as instalações existentes e as modalidades distribuídas pelo território, levam investimento e projeção do litoral ao interior, ligando o desporto ao turismo, à saúde, ao ensino superior e à tecnologia.

Há dois erros a evitar. A megalomania, que apresenta um evento como solução para tudo, de aeroportos a habitação, e deixa estádios, como os do Euro 2004, a pesar nas contas dos municípios. E a falta de visão, que acha que só vale a pena o que já conhecemos. Entre os dois há um caminho que exige planeamento a doze anos, a duração do próprio plano nacional, e que não se constrói em campanhas. A pergunta não é onde ficam os Jogos de 2036 ou de 2044, é o que fazemos até lá para termos federações mais fortes, mais desporto no território e mais portugueses a praticá-lo, e para que todas as partes interessadas trabalhem em conjunto na obtenção de melhores resultados internacionais. A utopia que vale a pena é a que se consegue medir.


 

Fernando Parente

Fernando Parente

6 novembro 2026