twitter

Seminários, “que procurais”?

De 7 a 15 de novembro, decorre, em Portugal, a Semana dos Seminários. Ao olhar para o programa que os nossos Seminários Arquidiocesanos delinearam para este ano pastoral, gostaria de partilhar algumas reflexões e sensibilidades.

O Evangelho relata-nos o chamamento dos primeiros discípulos. Os Evangelhos Sinóticos apresentam narrativas que, nos seus traços essenciais, se aproximam. São João, por sua vez, detém-se em episódios particularmente ricos de significado e de surpreendente atualidade.

Eram muitos os discípulos de João Batista que procuravam encontrar-se com o verdadeiro Messias. Dois deles cruzaram-se com Jesus. Um chamava-se André; o outro seria João, que, ao escrever o seu Evangelho, optou por não se identificar. Jesus apercebe-se da presença daqueles dois jovens que O seguem de perto e toma a iniciativa de lhes dirigir uma pergunta: «Que procurais?». A resposta revela a inquietação de quem procura algo diferente e anseia por uma proposta capaz de dar sentido à sua existência: «Onde moras?».

Jesus não lhes indicou o nome de uma rua nem lhes forneceu qualquer indicação sobre a localização da sua residência. A sua resposta foi, antes, um convite provocador: «Vinde e vereis». Existiria algum lugar concreto? Seria no alto da montanha, por onde Jesus tantas vezes andava, ou junto à praia, onde aqueles homens trabalhavam no seu quotidiano? Ninguém o sabe. Conhecemos apenas a resposta que se traduziu numa atitude: «Foram, viram onde morava e ficaram com Ele» (Jo 1, 39).

O mundo hodierno oferece respostas que, tantas vezes, deixam um sentimento de insatisfação e perplexidade. Ao refletir sobre a sociedade contemporânea, o Papa Leão XIV, durante a sua recente visita a França, denunciou esta realidade no coração de Paris, na emblemática Praça da Concórdia, apesar das diversas manifestações de oposição à sua presença. Perante a tentação de nos contentarmos com «bens materiais, satisfações imediatas, pequenos ídolos», a humanidade manifesta uma profunda «sede de sentido, de verdade e de realização». Torna-se, por isso, urgente recentrar as aspirações humanas e dar resposta a esta sede, pois, como afirmou o Papa, «o sentido é o oxigénio da mente».

Neste contexto, a Igreja tem diante de si as conclusões de duas etapas da caminhada sinodal. Existe um Documento Final a que o Papa Francisco reconheceu valor magisterial.

Não precisamos de percorrer muitas páginas para encontrar o núcleo central deste documento: «O Sínodo convoca a Igreja para repensar o “lugar” onde ela acontece», de modo a descobrir o caminho para «melhor servir a sua missão».

Não podemos, naturalmente, desconsiderar os «lugares» onde a Palavra é anunciada e os Sacramentos são celebrados. Contudo, há também um novo «lugar» a descobrir. Tal como aqueles dois jovens se encontraram com Cristo fora dos espaços habituais, existe uma «novidade» que, sendo tão antiga como o próprio Evangelho, importa recuperar e valorizar.

«É aí, na teia de relações que se estabelecem, que a Igreja é chamada a exprimir a sua sacramentalidade (Lumen gentium, 1) e a realizar a sua missão» (DF, 114).

O Sínodo veio confirmar aquilo que São João Paulo II já havia afirmado na carta apostólica Novo millennio ineunte (No início do novo milénio): «Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milénio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo» (NMI, 43).

Regressemos ao Documento Final do Sínodo, para não nos perdermos em considerações meramente subjetivas: «Quando não é entendida como espaço fechado, inacessível, a defender a todo o custo, a imagem de casa evoca possibilidades de acolhimento, de hospitalidade e de inclusão [...]. O nosso compromisso, sustentado pelo Espírito, é fazer com que a Igreja seja percebida como casa acolhedora, sacramento de encontro e de salvação, escola de comunhão para todos os filhos e filhas de Deus» (DF, 115).

É precisamente aqui que passa a missão atual da Igreja: construir uma verdadeira «teia de relações» que permita experimentar este «novo lugar» onde a Igreja acontece. Talvez aí se encontre a resposta à procura de sentido que tantos ainda não conseguiram satisfazer, mas que, mesmo sem disso terem plena consciência, continuam a alimentar.

André e João descobriram juntos a «morada» de Jesus. Contudo, cada um viveu, pessoalmente, a alegria de um encontro único, singular e decisivo para a sua vida. «Era por volta das quatro horas da tarde» (Jo 1, 39).

Os nossos Seminários irão percorrer, ao longo deste ano pastoral, um itinerário muito concreto. Para os seminaristas, será uma interpelação permanente. Para os cristãos e para as diferentes comunidades paroquiais, movimentos e congregações religiosas, trata-se de reconhecer que é no amor recíproco que a Igreja verdadeiramente acontece.

A família deve constituir-se como um verdadeiro lar, transformando-se em Igreja doméstica. Assim, as paróquias não poderão contentar-se com a realização de celebrações e rituais: os movimentos terão de aprofundar e intensificar os laços de comunhão que os respetivos carismas lhes proporcionam.

Gostaria de voltar a este assunto por ocasião do Natal. Reconhecendo que os Seminários são o coração da Diocese e que a sua missão não se esgota nos edifícios que os acolhem, mantenho a profunda convicção de que Jesus não está apenas nos templos: habita também os diferentes contextos humanos. É aí que se torna possível construir relações à maneira de Jesus.

D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga

7 novembro 2026