A publicação de Venite ad me: Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época merece ser saudada. Aborda uma questão decisiva para a Igreja – a fragilidade da transmissão da fé – e o Dicastério para a Doutrina da Fé situa o texto com prudência. São «considerações», apresentadas como abertas a novos desenvolvimentos. Reconhecer que uma reflexão magisterial não encerra a questão abre espaço ao discernimento da Igreja.
O documento contém intuições pastorais importantes. Recorda a centralidade do querigma, insiste na escuta, reconhece a importância da inculturação, das narrativas e das práticas. Percebe que transmitir a fé não equivale a entregar conteúdos intactos de uma geração a outra. Há atenção às transformações culturais e à vida concreta das pessoas.
Precisamente por isso, parece-me que o método teológico presente no documento poderia ter beneficiado da experiência acumulada noutras áreas do saber teológico. Não porque lhe falte densidade doutrinal, mas porque a questão que procura enfrentar – a transmissão da fé numa mudança de época – exige uma articulação mais intensa entre a reflexão sobre o conteúdo da fé e a leitura teológica da experiência concreta da Igreja.
A reflexão teológica suscitada pelo Vaticano II ensinou-nos que a vida eclesial não é apenas o lugar onde se aplica aquilo que a teologia previamente estabeleceu. É também lugar onde a fé se exprime, se interpreta e é interrogada. As práticas, os conflitos, os fracassos, as novas pertenças ou o afastamento das comunidades não são simplesmente «dados pastorais» à espera de uma resposta doutrinal. Podem tornar-se lugares de conhecimento teológico.
O próprio documento aproxima-se desta possibilidade quando reconhece na piedade popular um «lugar teológico». Mas talvez não retire daí todas as implicações. Se uma prática pode ser lugar teológico, a relação entre doutrina e vida não pode ser pensada apenas numa direção. Não é somente a fé recebida que interpreta a existência; também a vida dos crentes, discernida à luz do Evangelho, pode levar a Igreja a compreender melhor aquilo que afirma crer.
Quando a investigação intelectual é apresentada, a propósito do acesso à fé, como podendo ser «no máximo, uma preparação», compreende-se o que se pretende salvaguardar: a fé não nasce de uma demonstração. Mas pensar teologicamente não serve apenas para preparar alguém para acreditar. Serve para aprofundar a fé, reconhecer tensões entre o Evangelho proclamado e a prática eclesial, e deixar que novas perguntas façam emergir dimensões antes insuficientemente compreendidas.
Talvez esteja aqui um dos problemas mais difíceis da conversão pastoral. Falamos muito de escuta, participação e sinodalidade. Criamos processos de escuta. Mas o problema começa depois: o que fazemos teologicamente com aquilo que escutámos? Se a experiência apenas fornece exemplos para uma reflexão já concluída, a escuta pouco pode transformar. O processo será participativo na forma, mas mudará pouco na substância.
A conversão pastoral exige, por isso, mais do que novos métodos. Exige também uma renovação do próprio modo de fazer teologia. Não se trata de submeter a fé às oscilações da experiência, nem de transformar a opinião dominante em critério da verdade. Trata-se de levar a sério a lógica da Encarnação: Deus deixa-se encontrar na história, e a história concreta da Igreja deve ser teologicamente discernida.
Talvez um dos grandes obstáculos à sinodalidade, e à receção do Concílio, seja este: não a incapacidade de ouvir, mas a incapacidade generalizada de pensar teologicamente aquilo que a vida da Igreja nos dá a ouvir. Venite ad me abre uma porta importante ao reconhecer que as suas considerações permanecem inacabadas. Uma Igreja que deseja transmitir a fé precisa de saber não apenas o que tem para dizer, mas também o que Deus lhe pode estar a ensinar através da sua própria vida concreta.