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O Cristianismo no Século III desencorajava qualquer forma de alegria

O presente mito é, na maior parte das vezes, veiculado por quem, tendo um entendimento preconcebido acerca do Cristianismo, retroprojeta no século III, centúria deveras marcante na modelação da vida cristã no contexto maioritário do Império Romano, imagens de uma fé cristã desconfiada do prazer, do entretenimento e das celebrações.

Esse entendimento, mesmo quando possa estar em sintonia com algumas realidades presentes e passadas, é oposto seja ao que foi e disse Jesus, seja àquilo que deve ser a vida dos Seus seguidores e da Sua Igreja. Ora vejamos: Jesus tanto parece ter andado “de festa em festa” que foi chamado de «comilão e beberrão» (Mt. 11,19) – algo que Ele não negou, pois, no fundo, era algo que revelava a essência da Sua missão. Mais: o Seu “testamento” é claro: «que a minha alegria permaneça em vós, e a vossa alegria seja completa» (Jo. 15,11), e o próprio Paulo dirá: «alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos!» (Flp. 4,4).

Certo: no século III parece que a tristeza era como o “oxigénio” que alentava o Cristianismo, fruto: dos cristãos nem sempre fugirem do martírio que entristecia as comunidades; dos diversos e insistentes apelos ao jejum, à penitência e à não participação nas festividades pagãs; e, enfim, da valorização do ascetismo. Todavia, a partir destas evidências, não se pode chegar a uma tal ideia de uma tristeza “oxigenadora” da fé cristã: a questão era a de se saber quais as celebrações e manifestações de alegria a que os cristãos se podiam entregar.

Na verdade, os cristãos em tal período (como em outros) não consideravam a alegria ou a celebração como algo intrinsecamente errado, embora desencorajassem veementemente certas manifestações desordenadas de prazer, de luxo, de diversão e de celebração quando essas estavam associadas ao culto pagão, à imoralidade sexual, à violência, à embriaguez ou ao apego excessivo aos bens materiais. Vejamos alguns exemplos de apelos à alegria.

No começo do século em apreço, Tertuliano de Cartago menciona que o cristão é aquele que «se relaciona com os irmãos com alegria no coração, participando num mesmo júbilo espiritual» (“Acerca da Oração”, 26). Perto do ano de 209, Clemente de Alexandria diz que o cristão «está sempre numa disposição de alegria (…), [sendo] a sua vida inteira um jubiloso festival sagrado e contínuo, pois ele está plenamente convencido de que Deus está presente em toda a parte para seu benefício» (“Miscelâneas”, 7, 7).

Cerca do ano de 253, Cipriano de Cartago, a propósito do regresso à sua comunidade de cristãos que quase tinham morrido por não terem negado a sua fé, refere: «que exultação entre todos os irmãos ali presentes; que corrida e que abraços de cada um à medida que chegam! (…) Eis uma alegria que já revela a do regresso do Senhor em vós» (“Carta [57] ao Clero e Povo de Cartago”, 4). Também Orígenes de Alexandria, no seu “Contra Celso” e muito provavelmente no ano de 248, escreverá: «o convite à felicidade oferecido por Deus passou para os cristãos, a quem chegou a doutrina de um culto puro e santo no amor alegre» (4, 22).

Volto a dizer categoricamente: o Cristianismo do século III não aboliu a alegria, embora tenha procurado redefinir os objetos e as formas adequadas dessa mesma alegria enquanto uma das preciosas manifestações do único dom do Espírito Santo: o amor. Hoje, nós também estamos chamados a fazer esse discernimento, nunca crendo que a alegria é sempre despropositada.

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

17 outubro 2026