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A sabedoria de escolher

Aceitar um trabalho noutra cidade pode melhorar a vida de uma família e tornar mais difícil acompanhar um pai que envelhece. Ficar pode preservar essa proximidade e fechar uma oportunidade importante. Antes de sabermos qual é a escolha mais prudente, há algo a reconhecer: nem sempre decidimos entre um bem e um mal. Por vezes, dois bens pedem-nos coisas que não conseguimos cumprir ao mesmo tempo.

Precisamos de informação rigorosa para compreender estas situações. Conhecer os recursos disponíveis, antecipar consequências e procurar alternativas pode desfazer dilemas que pareciam inevitáveis. Uma decisão amadurece também quando descobrimos que a escolha foi mal formulada. Repartir os cuidados, alterar um horário ou negociar outras condições talvez permita conciliar o que julgávamos incompatível. O discernimento exige este trabalho; a invocação da complexidade não o substitui.

Há, contudo, conflitos que resistem ao melhor esclarecimento. Podemos conhecer razoavelmente as consequências e continuar sem uma solução que preserve tudo. A dificuldade já não resulta apenas do que ignoramos. Nasce da pluralidade dos bens que reconhecemos e dos limites concretos da nossa vida. A inteligência permanece necessária, mas a decisão pede uma sabedoria capaz de ponderar o que cada possibilidade realiza e aquilo a que obriga a renunciar.

É tentador resolver essa inquietação desvalorizando o caminho abandonado. Quem parte pode convencer-se de que a presença familiar era dispensável; quem fica pode declarar que a oportunidade profissional nada valia. Assim, a escolha parece deixar de ter custos. Mas a serenidade obtida à custa dessa falsificação empobrece o juízo. O bem a que renunciamos não perde necessariamente o seu valor por termos escolhido outro.

A sabedoria começa por suportar esta verdade sem fazer dela uma condenação. Reconhecer uma perda não demonstra que decidimos mal. Pode revelar que compreendemos melhor o alcance da decisão. Também não basta ter sofrido para adquirir justeza de juízo: a experiência pode ensinar ou endurecer, e os afetos tanto esclarecem como encobrem. Precisam de ser interrogados, sobretudo quando nos oferecem razões demasiado convenientes para aquilo que já desejávamos.

Esta exigência impede que a sabedoria se torne uma qualidade que atribuímos a nós próprios para encerrar a discussão. Quem vive as consequências de uma escolha pode reconhecer nela algo que nos escapou. Escutar essa pessoa permite rever os pressupostos, identificar sacrifícios que poderiam evitar-se e perceber se distribuímos os encargos de forma justa. Uma renúncia pode parecer mais leve quando é outro a suportá-la.

Importa, porém, não transformar qualquer injustiça num conflito respeitável entre valores. Há direitos que uma vantagem coletiva não autoriza a ignorar. E há perdas apresentadas como inevitáveis que resultam apenas de não se terem procurado alternativas. A prudência precisa de razões que possam ser discutidas e de atenção ao que efetivamente acontece. A palavra «sabedoria» não dispensa essa prova.

Também as instituições precisam desta lucidez. Uma reorganização pode melhorar um serviço e reduzir a proximidade de que algumas pessoas beneficiavam. Se a apresentação dos resultados só admitir ganhos, essa perda desaparece da discussão antes de desaparecer da vida. Reconhecê-la não invalida automaticamente a reforma: permite avaliar melhor o seu custo e procurar modos de preservar algo do bem sacrificado.

A sabedoria ajuda-nos, assim, a escolher sem fingir que dispomos de uma vida ilimitada ou de uma escolha sem perdas. Não promete a tranquilidade de acertar sempre. Sustenta a atenção ao bem que uma escolha necessária deixou por realizar. Quem partiu continuará a procurar formas de estar presente; quem ficou poderá abrir outros caminhos para o seu futuro. A decisão foi tomada, mas permanece alguma coisa por cuidar.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

17 outubro 2026