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Finou-se setembro

Apaziguado, luminoso e reconfortante finou-se setembro; e com ele se vão apagando as manhãs claras e frescas e os finais de tarde com crepúsculos que se ensanguentam distraidamente e tangencialmente.

É, por excelência, o mês dos retornos, dos adeuses, das saudade das lágrimas; obstinadamente com a natural plangência de quem parte e de quem chega e consigo carrega a nostalgia das férias e da paz conglomerada entre amigos e familiares.

E eu, agora aqui tardiamente plasmado frente à folha em branco, espero bem que aconteça o arranque dos primeiros eflúvios da crónica que vem do fundo de mim e consigo carrega o desejo de dar e confluir, naturalmente com a obrigação de quem escreve para os outros sem interesses vorazes e subterfúgios incógnitos.

Setembro que nos meus já longínquos e celebrados tempos de criança, carregava e enorme sortilégio das colheitas, mormente das vindimas na aldeia onde pontificava sempre a alegria e o convívio; e para, crianças endiabradas e convergentes que éramos, tinham o sortilégio do mês que antecedia o abrir de portas, somente nos primeiros dias de outubro, às escolas.

Como, igualmente, era o mês predileto para algumas famílias que faziam praia após a recolha e armazenamento dos produtos que a terra conferia nem sempre com a desejada e festejada alegria de recompensa para os duros trabalhos do campo, feitos com o suor dos rostos e o cansaço dos corpo; e esta realidade que deixou de ser o compromisso das pessoas consigo próprias e com os seus familiares é, hoje, suplantada por novas formas e meios de feriar que as viagens e saídas para o estrangeiro nas férias vêm pôr um novo remoque e forma de vida.

Pois bem, uma coisa me parece celular e evidente! Se as férias foram pensadas e desejadas para descansar e recuperar forças, seja a passear, seja a recompor o físico com umas boas e prolongadas sonecas e papos ao alto, nem que seja debaixo de um carvalho ou carvalheira e mesmo nalgum ermo areal de praia ou bonançoso souto de castanhal manso; e se não estão a cumprir estes princípios básicos, o povão acaba assim por regressar ao trabalho, após o desejado e festejado descanso, sem apetite para se agarrar ao emprego ou ocupação para que foi designado.

Todavia, custe o que custar, uma das melhores e mais seguras épocas de apalpar o pulso, nada de maledicências, ao país real que ainda somos é, sem dúvida, o verão e em todos os seus aspetos: familiar, económico, cultural e moral e... fiscal; pois o país está a ficar mais obeso, basta apreciarmos as barriguinhas que pelas praias andaram esparrinhadas ao sol ou pasmaceiramente curtindo umas boas sonecas, muitas vezes debaixo de um chaparro ou azinheira, acicatados de formigas e outra bicharada rasteira.

E a conclusão a que chegamos é evidente e perentória: não servimos de espelho a ninguém, quando muito somente serviremos de capacho, e sabem porquê? É que a desmesurada elevação do poder de consumo, a que chamamos consumismo, impedindo que se eleve de igual modo o poder cultural das pessoas, vai fazendo a coisa descambar e é burricada pela certa.

Agora o que obviamente acontece depois é uma aculturação apressada, desconexa, porque imposta a metro, não se chegando a mastigá-la como convém; e, como tal, não se digerindo convenientemente o material ingerido; e, claro, o resultado está à vista e é uma enorme congestão seguida da inevitável diarreia.

Depois, tudo não passa de uma questão da necessária criação de atitudes, mentalidades, princípios e valores que sempre são a base do desenvolvimento pessoal e social e que, assim, não abunda na populaça; e isto fundamentalmente porque a Educação está longe de cumprir os seus desideratos e os nossos responsáveis nacionais se estão marimbando para a realidade pluridimensional do Homem, pois mais fácil é dar-lhe o peixe do que ensiná-lo a pescar, já lá dizia o provérbio chinês e que é como quem diz; dar-lhe o sustentável, sem lhe exigir que se saiba conduzir, conduzindo-se.

Pois é, caros leitores, enquanto tivermos estas formas de ação cultural e social não vamos lá, nem sequer dos carretos; e, pior ainda, cada vez mais nos vamos enterrando em contradições, angústias, disfunções e estranhas formas de vida que mais não são do que a montra pública de um país que não serve de modelo nem exemplo a ninguém.

Então, até à próxima Nortada.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

7 outubro 2026