twitter

Por Entre Linhas e Ideias

Porque é que o ser humano tem tanto fascínio pelas dualidades? Esta pergunta ocorreu-me nos últimos dias, a propósito da polémica em torno da saída de Cristiano Ronaldo da seleção nacional. A discussão reduziu-se à pergunta habitual, afinal de quem é a culpa, de Ronaldo ou de Jorge Jesus? Mais do que descobrir quem tem razão, interessou-me perceber esta tendência humana para dividir os problemas em dois lados e sentirmo-nos quase obrigados a escolher um deles.

Caros leitores, reparem como fazemos isto quase sem dar conta e como esta tendência parece acompanhar-nos desde sempre. Pensamos a vida em pares como dia e noite, bem e mal, vida e morte, razão e emoção. Heraclito reconheceu esta tensão e escreveu que “o caminho para cima e o caminho para baixo são um e o mesmo”. Precisamos muitas vezes de um contrário para compreender o outro e, por isso, a oposição também pode ajudar-nos a pensar.

A História da Filosofia transformou esta tensão numa imagem extraordinária. No fresco A Escola de Atenas, pintado por Rafael, Platão aponta para o alto, enquanto Aristóteles estende a mão para a terra. Ali encontramos o idealismo ligado ao mundo das ideias e o realismo atento à experiência. O mais interessante está no diálogo entre ambas, porque uma convida-nos a levantar os olhos e a outra recorda-nos que temos os pés assentes no chão. Ambas têm a sua razão.

Há uma distinção de Aristóteles que os alunos conhecem quando estudam o quadrado lógico. Ser contrário não significa ser contra. Duas proposições contrárias não podem ser ambas verdadeiras, embora possam ser ambas falsas. No dia a dia, eu estar errado não torna automaticamente o outro certo. Mesmo assim, há quem goste de contrariar só por contrariar, fazendo jus à expressão “dividir para reinar”.

Ora, se há uma dualidade famosa na História da Filosofia, é a dualidade corpo e alma. Desde a Antiguidade, este binómio acompanha a reflexão sobre aquilo que somos, mas Descartes tornou esta dualidade mais clara ao separar o corpo, que pertence ao mundo físico, da mente, onde situava o pensamento e a consciência. Séculos depois, continuamos a perguntar onde termina o corpo e começa a mente, uma questão que intriga filósofos e cientistas.

Há dualidades que atravessam os séculos sem perder atualidade e guerra e paz é uma das mais marcantes. Tolstói deu-lhe o título de uma grande obra e a História continua marcada por esta realidade dual, porque, em todas as épocas, em algum lugar do mundo, existe uma guerra. Enquanto houver guerra, a paz continuará a ser uma das palavras mais necessárias da condição humana.

Meus amigos leitores, não poderia deixar de referir nesta crónica a dualidade que, para mim, é talvez a mais marcante, a de professor e aluno. No passado dia 5 de outubro comemorou-se o Dia Mundial do Professor e deixo uma palavra de gratidão a estes profissionais. Como professor, aprendi que quem ensina também aprende e que a deontologia pedagógica exige respeito, responsabilidade e exemplo. Ensinar é formar e, quando isso acontece, professor e aluno crescem um com o outro.

Não queria terminar esta crónica sem olhar para as dualidades do nosso tempo. Hoje movemo-nos em oposições como o humano e o artificial, o presencial e o digital, o público e o privado, a liberdade e a segurança e, cada vez mais, o real e o virtual. Os nomes mudam, mas permanece a necessidade de distinguir realidades que tantas vezes se cruzam.

E volto a Ronaldo e a Jorge Jesus, não para escolher um culpado, mas porque este episódio me lembrou como depressa procuramos dois lados para explicar o que é mais complexo. António Variações cantava “Só estou bem onde não estou” e talvez essa inquietação diga algo sobre a nossa tendência para viver entre opostos. A resposta pode não estar num lado nem no outro, mas entre ambos.

Para esta semana, pensem então no seguinte,


 

“A dualidade ajuda-nos a pensar, mas a verdade raramente sobrevive num só lado.”

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

7 outubro 2026