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A acelerar para o fim? (a diagnose de Slavoj Žižek)

Isto está para acabar? Só Deus sabe. Mas que estamos a dar passos velozes – e ferozes – em direção a uma (auto)destruição é evidência demasiado gritante. 

Apesar de não escrita, há uma regra que está inscrita na «ementa» da vida: tudo o que tememos que possa suceder acaba quase sempre por acontecer. 



 

Neste «brainstorm» (vendaval de ideias) que nos envolve, Slavoj Žižek alerta para a eclosão do que ele denomina «aceleracionismo».

Sempre soubemos que a história muda; entretanto, vamo-nos apercebendo cada vez mais de que a história acelera. A aceleração é um facto; já o «aceleracionismo» instala uma «espécie de determinismo».



 

Quanto mais se acelera, menos se consegue recuar ou mudar de rumo. 

A aceleração encaminha-nos para um termo que tanto pode culminar em triunfo como findar em desastre. Ela «não avança indefinidamente: há um “momento final” incorporado na sua lógica».



 

Esse «momento final» consistirá na «autoabolição ou na autossuperação da humanidade».

Pela via da destruição ou da reconfiguração, arriscamo-nos a deixar de ser o que somos, isto é, «seres humanos».



 

Um dos principais alicerces desta aceleração «é o desenvolvimento explosivo da Inteligência Artificial». 

É altamente provável que a IA conduza «ao surgimento de uma autoconsciência coletiva, que será simultaneamente bem-aventurada e aterradora e engolirá os indivíduos, privando-os dos seus “eus” singulares».



 

O «aceleracionismo» celebra assim – com uma euforia cínica – «a autoextinção da humanidade».

E, como se não bastasse, postula que, «pior do que a aniquilação, é o adiamento perpétuo dessa aniquilação».



 

É claro que a humanidade terá de enfrentar ameaças mais imediatas, «desde catástrofes ecológicas e guerras globais até ao caos social».

Num tal contexto, vai emergindo um polo de atração distópico «para o qual a nossa realidade, entregue a si mesma, tende». A única forma de suster essa catástrofe futura é através de atos que interrompam a nossa deriva com destino a esse polo.



 

Não é, infelizmente, a opção mais previsível. Abundam peritos que não cessam de nos prevenir: o desfecho inevitável das guerras que incendeiam o mundo será o recurso ao armamento nuclear.

Alexander Vladimorov em 2023: «Em prol dos objetivos dos litigantes, serão utilizados todos os meios de luta armada disponíveis, incluindo as armas nucleares».



 

E, contudo, parecemos vogar em estado de alienação discutindo inanidades e sorvendo futilidades como se a nossa sobrevivência não estivesse em causa.

«A nossa verdadeira loucura – regressemos a Slavoj Žižek – reside na coexistência entre opções radicalmente diferentes: é possível virmos a desaparecer numa guerra nuclear, mas o que verdadeiramente nos incomoda é se os cancelamentos de voos nos dão cabo das férias».



 

Não tenhamos ilusões, «mais cedo ou mais tarde o fim acabará por chegar». Mas, antes da sua chegada, há ainda tanta coisa que pode ocorrer.

Bom seria que o fim da história fosse a paz total e não o terminal acelerado de tensões extremas e destrutivas. Ainda iremos a tempo de desacelerar?

João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira

6 outubro 2026