Não, não é sobre o romance em epígrafe do escritor Arold Robinson, que retrata Hollywood das suas origens modestas aos seus tempos áureos (por vezes repletos de podridão), mas para dizer o seguinte: frequento uma pastelaria em que se não fossem os estrangeiros que sonham ter uma vida melhor, não teria quem me aviasse a bica habitual. Uma vez que os nacionais que ali trabalhavam debandaram para outras paragens.
Pois bem, se há comunidade que rapidamente se adapta ao nosso modus vivendi, é a brasileira. Vinda, normalmente, de forma legal, a falar a mesma língua e com um apurado sentido de integração. Cujos seus elementos humanos chegam dispostos a cumprir as regras lusas do bem-viver. Já o mesmo não se pode dizer de algumas outras nacionalidades que aqui vão chegando de forma ilegal, através do crime organizado. Contudo, seria prudente que uns e outros, antes de para cá virem, consultassem os números que nosso Instituto Nacional de Estatística disponibiliza.
Assim, ficariam a saber serem 2.300 milhões os portugueses emigrados, dos quais 80.000 são jovens. O que significa terem trocado a sua Pátria por outras, continuando a fazê-lo. Isto, porque se tivessem optado por ficar, mesmo licenciados, arriscar-se-iam a ter de viver com um salário mínimo (SM) de 920€, restando-lhes 818€ líquidos, devido aos descontos para a Segurança Social. Ou, na melhor das hipóteses, com um salário médio de 1.611€, ficando com 980€.
Dados que mostram a quem pretende migrar para cá as dificuldades que poderá encontrar. Tais como conseguir suportar o real custo de vida que por aqui graça. Pois, segundo a Prodata, somos o 6.º país com menor poder de compra da União Europeia (UE), cujo SM dá para comprar 3,4 cabazes de alimentos/ mês, enquanto na Alemanha sobe para 8. Para além disso, com uma outra questão se depara: conseguir onde morar. E aqui é que as coisas se complicam. A renda de um T0, de 50 m2, em Lisboa, pode custar 781€/mês. Isto, para quem dispõe se 818€ do SM, já que se for para um T1, ou T2, nada lhe sobra.
No entanto, quem vier disposto a ir viver para o interior, em cidades como Bragança, Vila Real, Beja, Viseu e Portalegre depara-se com este dilema: “onde há casas que pode pagar, não há empregos; onde há empregos não há casas que possa pagar”. Ademais, no que toca à compra de habitação necessitará de prescindir de 76% do SM para a prestação mensal durante, pelos menos, 19 anos. Porque se for em Faro sobe para os 101%. Quando o saudável seriam 33%. Algo que fica a dever-se aos 24% de inflação desde 2020, a segunda mais elevada da EU.
Depois, aqueles que se aventuram a vir para Portugal, na maior parte das vezes incentivados por conselheiros desonestos, podem arriscar-se a uma vida sem dignidade. Porquanto o país não preparou alojamento para receber um fluxo tão numeroso de cidadãos. Daí, ficarem sujeitos a habitar amontoados em lojas, garagens, quartos e, até, na rua sem condições de salubridade.
Motivo pelo qual a desilusão se instala nas pessoas, ao verem-se confrontadas com a exploração, escravatura e uma enorme carga fiscal sobre o trabalho, acabando por vir ao de cima o sentimento de terem sido enganadas. Sobretudo por quem, a troco de alvíssaras, lhes vendeu a trapaça de viajarem para um eldorado onde as Instituições são débeis, pouco eficazes, a Justiça é lenta (200.000 processos pendentes) e cara.
Uma coisa é certa, o que não falta são “vendedores de sonhos” a quem anseie por uma vida boa. Embora os compradores de ilusões tenham vindo a diminuir: em 2024, entre os 15 e os 39 anos, entraram no nosso país 188.000 e 59.000, em 2025, o que não me surpreende. Pois até os nossos irmãos brasileiros já fazem as contas, pensando regressar às origens. E é pena, porque me afeiçoei à sua desinibida e peculiar forma de estar. Pelo que, por este andar, me arrisco a deixar de ter o pessoal de sotaque brazuca a servir-me o acostumado cafezinho.