Há qualquer coisa de estranho na forma como se lida com a morte. Diz-se que é um assunto mórbido, evita-se falar sobre ela e, quando alguém morre, procuram-se palavras mais suaves: “partiu”, “deixou-nos”, “foi para um lugar melhor”. Depois, ligamos a televisão e vemos filmes de terror, séries policiais, assassinatos, corpos, sangue. Lemos notícias sobre pessoas que foram esfaqueadas, baleadas ou encontradas mortas. Queremos saber onde aconteceu, como aconteceu, quem foi, porquê. Percebo, afinal, que se fala de morte. O que muda é o lugar onde aceitamos vê-la.
Conseguimos olhar para a morte quando aparece como ficção, crime ou espetáculo. O que parece ser mais difícil é olhar para a morte enquanto parte da vida: a morte de alguém que envelheceu, depois de uma doença prolongada ou simplesmente porque somos seres finitos.
A morte de alguém próximo entra na nossa vida e altera-a. Deixa uma cadeira vazia, uma casa diferente, um lugar à mesa que já não será ocupado e obriga-nos a reorganizar relações, rotinas e projetos. É duro reconhecer que as pessoas que amamos morrem, que os nossos pais envelhecem, que alguém da nossa idade pode morrer e que também nós temos um fim.
Mas esta dificuldade parece ser ainda mais evidente quando pensamos nas crianças. Oiço tantas vezes que uma criança é demasiado pequena para ir a um velório ou funeral, porque pode ficar impressionada ou triste e é melhor protegê-la. Lembro-me, há bem pouco tempo, de observar duas crianças num funeral: uma ficou parada porque a mãe não a deixou despedir-se; outra avançou de mão dada, chorou e voltou a chorar, não porque tivesse ficado chocada, mas pelo vínculo que carregava com a pessoa que perdera. Vale a pena deixar a pergunta: protegemos as crianças da morte ou da dificuldade do adulto em falar sobre ela?
Afastam-se as crianças da morte real, mas permite-se que convivam com inúmeras representações de morte e violência: filmes, séries, desenhos animados, videojogos e brinquedos onde “matar” faz parte da narrativa. Não são experiências equivalentes, naturalmente. Mas quando uma criança pergunta “morreu?”, não podemos esconder-nos atrás da ficção. Temos de explicar que o corpo deixou de funcionar, que aquela pessoa não voltará, que podemos sentir saudades e continuar a amar quem morreu. Bem sei que é mais fácil afastar a criança do funeral do que enfrentar estas perguntas. Precisamos, porém, de lhes dar a possibilidade da despedida, escutá-las, perceber a relação que tinham com quem morreu e respeitar a sua vontade. As crianças vão cruzar-se com a morte, quer falemos dela ou não.
O que estamos a ensinar quando retiramos a morte do quotidiano, mas permitimos que ela regresse através do espetáculo? Podemos falar durante horas sobre um assassinato, discutir os pormenores de um crime e acompanhar uma investigação. Mas, quando alguém morre de velhice, de doença ou porque chegou ao fim da vida, muitas vezes não sabemos como iniciar a conversa. No fundo, criámos uma sociedade onde a morte pode ser consumida, mas tem dificuldade em ser partilhada. Não precisamos de falar da morte a toda a hora! É claro que não. Mas penso que precisamos de voltar a dar-lhe um lugar na família, na escola, nos rituais e na comunidade: conseguir dizer “morreu” sem sentir que estamos a cometer uma transgressão e falar da finitude sem a transformar num presságio de desgraça. Falar da morte não é chamar a morte! É reconhecer que ela faz parte da vida.