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Também se polui o que não se vê

Aprendemos, com algum atraso, que um rio pode morrer antes de deixar de correr. A água continua ali, mas já não sustenta a vida que deveria acolher. Talvez precisemos de adquirir uma consciência semelhante acerca do ambiente comunicacional em que vivemos. Também ele pode estar cheio de mensagens e ligações e, no entanto, tornar-se impróprio para uma vida humana digna.

É aqui que a expressão «ecologia dos média» ganha espessura. Obriga-nos a reconhecer que os média constituem um ambiente: não são canais exteriores por onde passam conteúdos previamente formados, mas condições que interferem no modo como vemos, sentimos, desejamos e julgamos. Um ecrã não nos mostra simplesmente o mundo. Pelo formato, pela seleção e pela repetição, ensina-nos silenciosamente a maneira de o olhar.

Um ambiente pode estar degradado mesmo quando nele circulam muitas afirmações verdadeiras. Basta que tudo seja submetido à urgência, que a indignação seja premiada, que a complexidade seja castigada e que cada acontecimento tenha de caber imediatamente numa narrativa capaz de confirmar aquilo que já pensávamos. A poluição simbólica começa quando deixamos de encontrar as condições necessárias para formar um juízo.

Mas seria cómodo atribuir toda a responsabilidade aos algoritmos. As plataformas aprendem também connosco. Alimentamo-las quando partilhamos antes de compreender, quando confundimos visibilidade com importância, quando premiamos a frase que humilha porque é espirituosa ou quando fazemos da indignação uma forma de identidade. O ambiente digital não é apenas aquilo que nos acontece; é também aquilo que, gesto após gesto, ajudamos a produzir.

Talvez a forma mais subtil desta poluição seja a fabricação de identidades. Nunca foi tão fácil dizer publicamente quem somos nem tão forte a pressão para o demonstrarmos sem cessar. O que comemos, apoiamos, rejeitamos ou denunciamos pode converter-se em material de uma autobiografia permanente. Deixamos então de viver certas experiências para começarmos a vivê-las também como sinais destinados aos outros. O risco não está em mostrar a vida, mas em passar a construí-la para que possa ser mostrada.

Precisamos, por isso, de uma literacia mais funda. Saber utilizar uma plataforma não significa saber habitá-la livremente. A verdadeira literacia começa quando somos capazes de perguntar: quem escolheu o que estou a ver? Que emoção esta mensagem pretende despertar? Que interesses beneficia? O que ficou fora do enquadramento? E, sobretudo, que espécie de pessoa me estou a tornar ao permanecer neste ambiente?

Também as narrativas exigem vigilância. Nenhuma sociedade vive sem histórias que lhe digam o que merece ser amado, temido ou esperado. O problema começa quando essas construções aparecem como evidências naturais, dispensadas de exame. Um slogan, uma imagem ou um vídeo de poucos segundos podem transportar uma visão inteira do ser humano sem a declarar. A liberdade exige aprender a tornar visível essa gramática escondida.

Cuidar da ecologia dos média é, portanto, uma tarefa política: cuidar da casa comum onde formamos opiniões, reconhecemos os outros e decidimos o que merece atenção. Não se trata de sonhar com um mundo sem ecrãs nem de demonizar tecnologias que também ampliaram a possibilidade de encontro e conhecimento. Trata-se de perguntar pelas condições que tornam um ambiente habitável.

Talvez devêssemos começar por uma regra elementar de higiene pública: nem tudo o que pode circular merece ser posto em circulação. Há palavras que esclarecem e palavras que contaminam; imagens que revelam e imagens que sequestram; narrativas que alargam o mundo e narrativas que o tornam tão estreito que já só nele cabem os nossos semelhantes. A qualidade de uma sociedade mede-se também pelo ar simbólico que permite respirar. E esse ar, ao contrário do que por vezes fingimos acreditar, é responsabilidade de todos.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

3 outubro 2026