Nos textos anteriores que tenho vindo a apresentar, já se pôde ler à saciedade que os muitos fiéis Protestantes, Reformadores e de outras confissões mais ou menos pseudocristãs suscitam diversos mitos relacionados com uma hipotética descristianização do Cristianismo, fruto, seja da influência exercida neste por parte de Constantino I, seja da importação de elementos filosóficos e rituais pagãos durante o séc. III.
Pois bem, mesmo admitindo-se a boa vontade de quem advoga o sustentado pelo mito que está a ser ponderado neste texto, é difícil ver mais do que resquícios de uma verdade que, no fundo, se manifesta bem diferente.
Vejamos os argumentos que são apresentados para se defender o mito que se está a ponderar. Em primeiro lugar, aponta-se que, durante a controvérsia acerca do rebatismo daqueles que haviam, de alguma forma, abjurado a fé durante as perseguições do séc. III, surgiram clivagens internas e acusações de se estar a ignorar a Tradição. As ditas clivagens e acusações aconteceram, mas não se estava a seguir novidades “humanas”, nem a ser-se laxo ou a colocar de lado a Tradição, mas a tentar-se defender as verdades contidas nesta e que se criam essenciais (algo que não era uniforme) (ver Cipriano de Cartago, “Carta [62] a Cecílio”, 14 [de 255 ou 256], onde se lê: «[não] é apropriado seguir a prática do homem, mas a verdade de Deus»).
Depois, há a alusão de que, face à persistência de movimentos que estavam a fracionar o Cristianismo (como o gnosticismo, o marcionismo, o montanismo, o modalismo, etc.), os bispos centralizaram a sua autoridade, pervertendo, nesse processo, a verdadeira Tradição e inventando uma outra conforme às suas necessidades. Essa centralização ocorreu, mas sem rutura alguma nessa Tradição, antes pelo aferir, fruto da realidade em que viviam, de emergentes elementos de verdade que nela estavam contidos (ver Orígenes de Alexandria, “Comentário ao Evangelho de João”, 5, Prefácio [cerca de 231], onde se encontram estas palavras: «não devemos dar ouvidos àqueles que dizem ‘Eis aqui o Cristo’, mas O apontam fora da Igreja e da Tradição da Igreja»).
Finalmente, e no que já foi apontado mais acima e comentado a respeito de mitos dados a conhecer em textos anteriores, alega-se que, à medida que o Cristianismo crescia, pacientemente começou a absorver o vocabulário filosófico greco-romano e as práticas culturais pagãs, desrespeitando-se a mensagem de Jesus em benefício de uma acomodação com estruturas externas à fé cristã. Sim: o expressar linguístico desta fé importou termos filosóficos pagãos; sim: a vivência dessa fé importou expressões externas pagãs, mas isso ocorreu, respetivamente, para tornar tal fé inteligível e para dizer-se visualmente a mesma mediante essas expressões que haviam caindo em desuso no paganismo. Sobre isto, ver: Tertuliano de Cartago, “Acerca da ‘Prescrição’ contra os Hereges”, 7, 3 (datado de 201 a 207).
Dito isto, não haja dúvida alguma de que os teólogos do séc. III defendiam a importância da Tradição. Veja-se, por exemplo: Tertuliano de Cartago, “Acerca da Coroa do Soldado”, 3s (datado de 211); Orígenes de Alexandria, “Acerca dos Primeiros Princípios”, Prefácio, 2 (escrito de 220 a 230) e Estevão de Roma citado em Cipriano de Cartago, “Carta [73] a Pompeu”, 1 (do ano 256), onde se pode ler: «nada se inove além daquilo que foi transmitido [pela Tradição»).