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Por Entre Linhas e Ideias

Porque é que as manias dos outros se notam mais do que as nossas? Hoje resolvi falar-vos de um assunto que não encontramos muitas vezes numa crónica, as manias. Pode até parecer estranho que, sendo eu da Filosofia, venha falar deste tema, mas estas pequenas coisas que repetimos quase sem pensar, que reconhecemos mais depressa nos outros do que em nós próprios, dizem muito sobre nós. Há quem chegue sempre cedo, quem confirme duas vezes se fechou a porta e quem não consiga começar o dia sem um bom café. Esta última, confesso, sabe bem!

Também tenho as minhas manias e uma delas acontece logo de manhã porque, mal acordo, vou sempre à janela ver como está o dia. Olho para o céu, vejo se chove, se há sol ou nevoeiro e depois sigo para as rotinas da manhã.

Caros leitores, muitas manias começam assim. Repetimos um gesto porque nos agrada ou porque nos habituámos e, quando damos por isso, já estranhamos se não o fizermos. E é assim que um hábito repetido acaba por se transformar numa mania.

Muitos grandes pensadores e criadores também ficaram conhecidos pelas suas manias. Kant organizava os dias com tanta regularidade que o passeio diário por Königsberg ficou célebre pela pontualidade. Beethoven, por sua vez, era tão exigente com o café que contava exatamente sessenta grãos para preparar cada chávena. Já Luciano Pavarotti ficou conhecido pelo grande lenço branco que levava consigo quando cantava em concerto. O lenço ajudava-o a sentir-se mais à vontade em palco e tornou-se um verdadeiro talismã e uma das suas imagens de marca. O filósofo David Hume ajuda-nos a perceber isto. Para ele, o hábito tem uma força enorme na forma como pensamos e agimos, porque aquilo que repetimos cria em nós a expectativa de que as coisas continuarão a acontecer da mesma forma.

Podemos falar de manias como poderíamos falar de hábitos ou superstições. Lembro-me de, em casa da minha avó, haver coisas que não se faziam. Uma delas era deixar o pão virado ao contrário em cima da mesa. Se acontecesse, alguém tratava logo de o endireitar. Dizia-se que dava azar, embora houvesse ali também aquele respeito antigo pelo pão.

Por falar em superstições, há outras que passaram de geração em geração. Dizia-se que não se deviam varrer os pés de uma pessoa porque ficaria solteira, não se abria um guarda-chuva dentro de casa e havia quem fizesse uma pequena cruz no pão antes de o cortar. Depois tínhamos a ferradura à porta para chamar a sorte, o corninho contra o mau-olhado e o bater três vezes na madeira para afastar o azar.

Caros leitores, estas crenças sobrevivem mesmo sem sabermos explicar porquê. Persistem porque nem sempre aceitamos bem aquilo que não conseguimos controlar. Por isso, confiamos em certos gestos ou objetos, como se pudessem dar uma ajuda à sorte ou evitar o azar. 

Uma das manias que muitos de nós temos é pensar que somos o centro do mundo. Basta alguém perguntar, num tom de quem se julga importante, “Sabe quem eu sou?”. Se tiver cinco minutos para ouvir a resposta, ela é simples. Sabe em que cidade vive, em que país está e em que planeta existimos? Quantas pessoas vivem no mundo, quantos planetas existem e quantas galáxias haverá no universo? Depois disto, podemos responder: sei quem você é. É alguém importante, disso não duvido, mas apenas uma pessoa entre milhares de milhões, num pequeno planeta perdido na imensidão do universo.

Montaigne, filósofo francês do século XVI, desmontou bem esta mania da grandeza quando escreveu que “mesmo no mais alto trono do mundo, continuamos sentados sobre o nosso próprio traseiro”. 

Caros leitores, eu continuarei a ir à janela de manhã para ver como está o dia e não prometo abandonar o café. Mas há manias a que acho particular graça, como a de algumas pessoas que, vendo um quadro apenas uns milímetros torto na parede, não descansam enquanto não o endireitam.


 

Fica uma ideia de que estou convencido


 

“Ter algumas manias não é grave. Grave é termos a mania de pensar que só os outros é que as têm.”

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

30 setembro 2026