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Novamente à rabiça... das Nortadas

E lá se foram as vacanças, como se diz em imigrantês que é um remedeio entre o português e o francês e muito se vai por aí exercitando na época balnear; e isto me faz lembrar aquele emigrante da era de sessenta que costumava exprimir-se para os conterrâneos, embasbacados, quando vinha de férias: vou fazer a minha casa tipo lá maison e com janelas à fenetre.

E claro que se acabaram as férias às NORTADAS, porque as outras já se finaram há uns bons dias, com a entrada de setembro; porque é altura já de o país regressar em pleno ao trabalho e à construção de um futuro cada vez mais justo, próspero e solidário, bem capaz de nos tirar da apagada e vil tristeza que referia Camões.

Todavia, caros leitores, o que é certo é eu vir muito desiludido e azeitado, sobretudo, com as bocas que certos políticos por aí vão dando e à descarada; porque não sei mesmo que vício nacional é esse de inventar para a vida política os tais verões quentes, como já não bastasse o que a natureza nos dá com incêndios, buracos do ozono e efeitos de estufa.

Eu gostava mas era de ver esses tais políticos de enxada em punho e mangas arregaçadas, no país real, a fazerem pela vida, ganhando para o sustento de si e dos seus; agora dar ao bico e sentenciando com ares de sabichões bem refastelados, barriga cheia e carteira avantajada, por essas praias fora, não tem piada nenhuma e tresanda a bacoquice.

Pois é, mal vai a vida política de um país que se faz com frequência de fofoquices, de trocas e baldrocas, de mexericos e ditos, de quezílias e escaramuças; e, mormente, bem longe da realidade ou mesmo em oposição a ela e, pior ainda, com o argueiro num olho e a tranca no outro, ou seja, com a verdade num e a mentira no outro. (Assim mesmo com bandeiras azuis da União Europeia por essas praias além a fazerem reclamo ao civismo que nos falta e, inclusive, à pouca qualidade de vida que vamos perdendo dia-a-dia; e, quiçá, a envenenar-nos com as próprias mãos alegremente e aos guinchos e aos pinchos, como símios pendurados, por ramos e galhos.

Porém, uma verdade ainda nos assiste: quer chova, quer faça sol, quer tenhamos ou não tenhamos ganhado a taluda ou o euromilhões, estamos um ano mais velhos; e esta é a realidade medonha que nenhum clister político, venha ele de Belém ou de S. Bento, poderá aliviar, mesmo que sonoramente, o doente.

E, então, é vermos a cal dos dias consequentes a branquear-nos os cabelos e, sobretudo, a charrua do tempo a abrir-nos na pele os sulcos fatais da inexorabilidade biológica; e esta mais não é do que a prova provada de que nada nem ninguém consegue parar os relógios da vida.

Enfim... todavia e após as férias e o regresso à normalidade dos dias não faz mal a ninguém, de quando em vez, olhar para dentro de si próprio; e, se necessário for, dar uma cambalhota à retaguarda ou fazer o pino em frente mas que seja em pleno gozo de circunstância.

Porque uma coisa é certa e a ela não fugimos, ou seja a vida é breve e não se compadece com futilidades e megalomanias; sobretudo quando, como nos tempos modernos, a matéria tenta desesperadamente dominar o espírito, o mal a sobrepor-se ao bem e no coração dos homens vai havendo cada vez menos espaço, ou seja lugar, para a Solidariedade, a Verdade, a Justiça, a Paz e o Amor.

Decididamente na Terra começam a faltar as sementes do Bem e a crescer as sementes do Mal; e, neste turbilhão de práticas e de ideias, avançam, através das redes sociais os ditames de certas cabeças iluminadas e, sobretudo, dominadoras a tentarem controlar o corpo e o espírito com propósitos absolutistas e prepotentes de domínio da morte e da absoluta garantia da imortalidade; se bem nos lembrarmos, ao longo da última década, os mais ricos e poderosos, de que são exemplo Putin e Xi Jinping, desenvolveram a esperança de que a morte possa ser erradicada ou adiada, a tal ponto que a sua força existencial seja diminuída (Jornal Expresso, 5 de Junho de 2026).

Então, até de hoje a oito.

Dinis Salgado

Dinis Salgado

30 setembro 2026