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No Cávado

Cávado é rio, território e Minho. Do Atlântico ao Gerês, com uma histórica centralidade em Braga, a memória acolhe o novo com naturalidade. O rio atravessa montanhas, albufeiras e vales rurais, molda paisagens e estrutura atividades económicas e sociais, ligando simbolicamente todo o território.

Do fio da história emergem: a afirmação de Bracara Augusta como capital da Galécia e do reino suevo; a expansão monástica medieval; a formação e o reconhecimento de Portugal, em que foi decisiva a ação diplomática do arcebispo João Peculiar; o crescimento urbano promovido por D. Diogo de Sousa; a Batalha de Carvalho d'Este; a presença do Miguelismo; a Revolta da Bernarda; a industrialização do século XX; o movimento do 28 de Maio; e a criação da Universidade do Minho (UMinho).

O passado romano é celebrado e as heranças castreja, sueva e visigótica honradas; o esplendor da primazia da diocese ainda é sentido; as festas e as tradições minhotas, como o lenço dos namorados, são vividas; o trabalho é central; e o futuro é abraçado de forma cosmopolita na economia, na cultura e no conhecimento.

Os seis concelhos, com desafios distintos, partilham a esperança de uma complementaridade a aprofundar e valorizar. Terras de Bouro, a joia da natureza no coração do Parque Nacional, procura um modelo de desenvolvimento onde a sustentabilidade e o turismo atraiam e retenham população. A oeste, Esposende oferece mar e qualidade de vida, numa paisagem protegida próxima de grandes centros urbanos, que tem trazido crescimento demográfico e económico. Em Barcelos, o icónico e jacobeu galo simboliza um mosaico onde convivem indústria, agricultura, artesanato e património histórico e natural. Amares e Vila Verde são cada vez mais espaços de residência e atividade articulados com Braga, exemplos de coexistência entre a ruralidade do minifúndio minhoto e um urbanismo em expansão. Braga afirma-se, tal como outrora, pelo conhecimento e pela difusão de saberes, combinando uma cultura urbana e universitária com uma economia diversificada e terciarizada.

O passado está omnipresente nas pedras e nas talhas de um património com forte matriz religiosa. A Sé de Braga, o Bom Jesus (classificado pela UNESCO), o Sameiro, os mosteiros de Tibães, Rendufe e Bouro, o Castro de S. Lourenço, a Geira Romana e o Centro Histórico de Barcelos, bem como muitas outras igrejas, mosteiros e palácios, alimentam um turismo crescente, apoiado por uma oferta hoteleira cada vez mais qualificada. Memórias coletivas, romarias, procissões e devoções atravessam gerações e continuam presentes no quotidiano e na identidade de um território que soube transformar herança em vivência – as peregrinações ao São Bento da Porta Aberta são uma expressão singular.

A década de 1970 desencadeou um profundo ciclo de transformação, potenciado pela democratização do país, a chegada de milhares de retornados e a instalação da UMinho. Os principais investimentos públicos dos últimos 50 anos foram determinantes para as acessibilidades, a qualificação dos recursos humanos e a atratividade do território.

A UMinho foi, provavelmente, o projeto de maior impacto económico e social. O INL constitui um dos mais importantes investimentos científicos da Península Ibérica. A formação superior pública foi posteriormente reforçada pela atual Universidade Politécnica do Cávado e do Ave (UPCA), inicialmente em Barcelos e hoje também em Braga. O novo Hospital de Braga elevou significativamente a capacidade hospitalar regional, numa das mais relevantes realizações na área da saúde no Norte.

As autoestradas A3, A11 e A28 e as circulares urbanas mudaram profundamente a posição do Cávado na geografia económica portuguesa. Braga e Barcelos passaram a integrar a rede metropolitana do Noroeste Peninsular, com melhores acessos ao Porto, Galiza, aeroportos e portos marítimos. Persistem, contudo, constrangimentos na ligação Vila Verde-Braga e numa rede ferroviária excessivamente radial e dependente do Porto. Na alta velocidade reside uma expetativa transformacional, colocando o Cávado nos grandes corredores europeus. Braga poderá ficar a cerca de 20 minutos do aeroporto Sá Carneiro, a 40 de Vigo e a 95 de Lisboa.

O desenvolvimento agrícola, hoje muito assente no vinho verde, tem raízes na conjugação entre condições naturais excecionais e a ação de instituições senhoriais e eclesiásticas. A capacidade de organização fundiária e de introdução de práticas agronómicas inovadoras fizeram do Mosteiro de Tibães um dos principais motores da valorização agrícola nas Idades Média e Moderna.

O sector secundário tem origens na protoindústria da olaria e cerâmica de Barcelos, nos séculos XVII e XVIII. Em Braga, as fábricas de chapelaria do Taxa e a Social Bracarense abriram caminho à industrialização moderna da cidade, de que, na primeira metade do século XX, eram exemplos a Industrial, associada ao benemérito Júlio Lima; a Confiança, de sabonetes e perfumes; e a Pachancho, de componentes mecânicos. A grande expansão industrial ocorreu, porém, após a Segunda Guerra Mundial, com a instalação da Grundig em Braga e de unidades têxteis e de confeção em Barcelos e, mais tarde, em Esposende.

Serviços empresariais, comércio, saúde, educação e tecnologias de informação convivem com uma indústria que continua dinâmica. Várias universidades e instituições do ecossistema científico-tecnológico promovem as humanidades e uma nova economia associada à engenharia, biotecnologia, nanotecnologia e ao digital.

A inovação é uma marca distintiva do Cávado. A competitividade internacional assente na tecnologia, na sustentabilidade e na eficiência estende-se da digitalização automóvel à construção industrializada e modular, colocando Braga entre os maiores concelhos exportadores do país.

Uma imigração bem integrada, particularmente a brasileira, mas também da Europa, Ásia e África, responde às necessidades da economia, rejuvenesce a população ativa de um território que historicamente soube acolher e integrar diferentes influências.

A genialidade de André Soares, que fez do barroco uma forma de escultura urbana; a sabedoria multifacetada do Abade de Priscos; o misticismo e a imaginação popular de Rosa Ramalho; a ousadia de António Variações; a sensibilidade e o olhar universal de Maria Ondina Braga; e a erudição de Vítor Aguiar e Silva alimentam a criatividade e a inovação, essenciais para enfrentar os desafios do quotidiano e construir o futuro.

Entre mar e serra, entre memória e modernidade, o Cávado marca. A sonoridade dos sinos e o canto do galo, o engenho das suas gentes, a força das suas instituições e o curso persistente do rio ajudam a perceber o que é ser daqui.

António M. Cunha

António M. Cunha

30 setembro 2026