O gesto de partir a hóstia (fração do pão) situa no mesmo plano a dimensão horizontal e a dimensão vertical, enquanto o gesto da paz e a comunhão o hierarquizam. Efetivamente, é o Corpo de Cristo o que partilhamos, mas esse Corpo de Cristo está aí, precisamente, para se partir como um pão em favor da unidade de todos. Isto explicaria o nome de «partir do pão» que lhe atribuem os Atos dos Apóstolos 2, 24: «eram constantes no partir do pão». Paulo chama-lhe ‘ceia do Senhor’. Nós chamamos-lhe ‘Eucaristia’.
Raniero Cantalamessa afirma: «É impossível explicar por palavras a essência do ato interior que acompanha o gesto de partir o pão. A nós, parece-nos um ato duro, cruel, e ao invés, é o supremo ato de amor e de ternura que jamais se cumpriu ou poderá realizar-se na terra. …Aquilo que Jesus dá a comer aos seus discípulos é o pão da sua obediência e o seu amor pelo Pai …pelo que também eu devo fazer o que fez Jesus naquela noite: antes de mais, partir-me a mim mesmo, isto é, pôr de lado toda a rigidez diante de Deus, toda a rebeldia para com Ele ou para com os irmãos; devo derrotar o meu orgulho e dizer um ‘sim’ total a tudo aquilo que Deus me pede, repetindo também eu as palavras: ‘Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade! Tu não queres que eu faça muitas coisas; tu queres-me a mim e eu digo-te: Sim’». (L’Eucaristia nostra santificazione, Ed. Ancora, 12.ª edição, 2012, p. 27)
Os três gestos: paz, fração e comunhão unem-se para formar uma só figura, que «é a própria finalidade da Eucaristia: Cristo entrega-se a si mesmo para que cada um, em comunhão mais profunda com Ele, viva em comunhão mais profunda com os outros». (Chauvet, p. 112) As orações eucarísticas exprimem-no bem, sobretudo na segunda invocação do Espírito Santo (2.ª epiclese): «Humildemente Te pedimos que o Espírito Santo congregue na unidade quantos participamos do Corpo e Sangue de Cristo». (Oração Eucarística II). De modo muito semelhante se faz tal petição na Oração Eucarística III e na IV. Para São Tomás de Aquino, a graça final da Eucaristia é precisamente que todos se reúnam no Corpo eclesial. São Boaventura dizia isto de uma outra forma também forte: «pela comunhão, não é o fiel que transforma Cristo, mas é Cristo quem o incorpora ao seu Corpo Místico (a Igreja). (Cf. Chauvet, p. 112)
Daqui se inferem consequências importantes na vida ética dos cristãos. Não se trata apenas de ter ‘sentimentos piedosos’, mas de uma conduta concreta para com o próximo: o próximo do ‘Corpo eclesial’ atual de Cristo, mas também o próximo do seu Corpo virtual em toda a humanidade. Isto refere-se não apenas à caridade e ao perdão, mas também à justiça. É fácil falar de amor e de caridade, esquecendo aquilo que necessariamente o precede e que é da ordem da justiça. (Id, p. 113)
A fração do pão deve ser visível e bem percecionada por toda a assembleia que a ela é convidada a reagir com a recitação viva, maravilhada, estupefacta de quem confessa que nesse pão partido está verdadeiramente o ‘Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo’, ou seja, o êxtase de quem, na fé, vê nesse pão partido a verdadeira vítima pascal, o Cordeiro de Deus. E não é nada disso que experimentamos nas nossas assembleias. Muitas pessoas nem sequer recitam a fórmula, e quase todas as outras a repetem apressada e mecanicamente, sem verdadeira vivência interior. Aliás, a Mãe Igreja, na sua sabedoria, relembra uma segunda vez, imediatamente antes de o sacerdote comungar e de os fiéis se aproximarem em procissão para a comunhão: «Felizes os convidados para o Banquete do Reino dos Céus: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo», a que todos respondem: «Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo». Também, nesta resposta, há tantas vezes uma recitação apressada, sem chama e sem alma. Isto no momento forte da Eucaristia: a comunhão! Foi para a comunhão que Cristo instituiu a Eucaristia.
Sobre a receção da comunhão, Chauvet, seguindo padres da Igreja como Cirilo de Jerusalém ou santo Ambrósio e o que foi prática habitual nos 10 primeiros séculos, sugere a comunhão na mão, dando também a possibilidade de receção na boca para quem a preferir. O entendimento do ‘Amén’ como resposta ao sacerdote ou ministro que diz: ‘o Corpo de Cristo’ é também fulcral. Neste caso, Amén significa: «é verdade», o que confessa a língua que o mantenha o coração» (Santo Ambrósio). Santo Agostinho diz de outa maneira: «Ao responderes Amén estás a dizer: Sê membro do Corpo de Cristo para que o teu ‘amén’ seja verdadeiro». (P. 116)
Chauvet recomenda ainda aos sacerdotes que a purificação dos vasos não se faça no altar, que é a mesa da celebração da ceia, e não uma mesa auxiliar de sobremesa. «Esta tendência torna-se ainda mais lamentável pela tendência a acompanhar com gestos de respeito ao Corpo de Cristo, levando ao exagero a preocupação pelos fragmentos que possam visualizar-se. Até porque denota uma conceção de presença de Cristo que não é a mais verdadeira. A presença é real, mas é uma realidade sacramental e não física – ou, em qualquer caso, fisicamente ‘oculta’. Torna-se uma prática desagradável em vários sentidos: a) essa limpeza escrupulosa e à vista de todos gera uma impressão mais de ‘magia’ do que de ‘sacramento; b) tendo em conta a preocupação e o tempo gasto e as precauções que se tomam, parece haver algo essencial nisso. (P.120)
Uma nota mais: «O essencial, inclusive o fundamental, no que se refere à comunhão, está na relação entre o Corpo eucarístico de Cristo e o seu Corpo eclesial. Este ponto é absolutamente fundamental, porque nos recorda que o ‘bom cristão’ não é o que frequenta a eucaristia todos os dias, mas o que, tendo participado da missa, onde se alimentou do pão da vida, na messa da Palavra, e na do Corpo de Cristo, se deixa configurara na sua vida em função do que celebrou e recebeu». (Chauvet, p, 120)