Querendo-se, mais uma vez, advogar que o facto de Constantino I ter dado liberdade de culto aos cristãos implicou uma mudança radical na compreensão e na vivência da fé cristã, tem sido cada vez mais usual eu encontrar disseminado o mito dado a conhecer no título deste texto.
Perante isto, é uma simples questão de honestidade admitir que é verdade que a posição dos teólogos do séc. III vai na linha de um severo pacifismo, não distinguindo eles, nas suas análises do que viviam à luz de Mt. 5,39 e de Mt. 26,22, entre um sujeito dever de abdicar de ser violento face a uma situação em que só ele estava em perigo e a possível falta de amor atestada por ele não fazer nada perante um ato violento na iminência de ocorrer a outrem.
Num contexto de perseguições, o apelo generalizado de tais autores ia na linha de que todo o fiel cristão necessitava de imitar Jesus no suportar todo o sofrimento injusto, fosse este dirigido a si, à sua família ou à sua comunidade (ver Tertuliano, “Acerca da Paciência”, 6 [do início do séc. III] e Cipriano de Cartago, “A Demetariano”, 17 [de cerca de 252]).
Os ditos teólogos também defendiam com firmeza a incompatibilidade entre se ser cristão e se ser membro do exército romano (embora se aceitasse que um militar que se convertesse ao Cristianismo permanecesse como tal), tendo, entre outras ocorrências notáveis, Tertuliano referido que Jesus, ao dizer a Pedro para guardar a espada (ver a já aludida passagem de Mt. 26,22), havia «desarmado todo o soldado daí em diante» (“Acerca da Paciência”, 19, de começos do séc. III), e Orígenes de Alexandria mencionado que os cristãos defendiam o imperador não pelas armas, mas, enquanto «militares da piedade», através das suas orações (ver “Contra Celso”, 8, 73s, escrito perto do ano de 248).
Talvez se pudesse dizer que estas últimas referências à pertença ao exército romano manifestam mais uma preocupação com os comportamentos pagãos que geralmente eram requeridos aos militares (especialmente juramentos e sacrifícios ao imperador) do que com o próprio combater. É possível, mas acho isso muito difícil de sustentar.
O que posso afirmar é que há múltiplas evidências históricas e arqueológicas de que havia uma certa distância entre o defendido teologicamente e a prática real. A nível arqueológico, temos, de modo particular (embora possam fazer alusão a conversos): a inscrição funerária, de cerca de 202 e repleta de marcas e fórmulas cristãs, de um militar da “Segunda Legião Parta”, e, depois, o “Mosaico de Megido” (de por volta de 230), com a sua alusão a «Jesus Cristo Deus» e a indicação de ter sido financiado por um «irmão [na fé]» que era «centurião».
A nível textual, pode-se fazer referência a dois tipos de registos. Primeiro: os dos tribunais romanos que julgaram e condenaram à morte militares cristãos por não realizarem atos pagãos (veja-se, entre outros, a “Ata de Marcelo”, de 298). Segundo: os dos testemunhos de dois “historiadores”, postos por escrito perto do ano de 314, de Eusébio de Cesareia (“História Eclesiástica”, 8, 4) e de Lactâncio (“Acerca da Morte dos Perseguidores”, 10, 1-5), os quais nos informam que, aquando da denominada “Purga [dos cristãos] do Exército” (promovida imperialmente nos anos de 298 e 299), muitos militares (com poucas probabilidades de terem sido todos conversos) se declararam cristãos, incorrendo na perda de riquezas, regalias e até da vida, em vez de negarem a sua fé através de comportamentos pagãos.