Por vezes, não é fácil destrinçar o que é próprio da idade do que é apenas preguiça. Mais ainda: nem sempre é fácil compreender os comportamentos de quem já somou muitos aniversários na sua vida. Alguém comentava, com razão, que as possibilidades de um sujeito que actualmente tem mais de oitenta anos são diferentes de outra pessoa, com a mesma idade, que tivesse vivido no século dezanove. De facto, a longevidade tem crescido e o tempo de vida na actualidade é bastante mais pujante do que outrora.
Contava-me, há pouco, uma pessoa minha conhecida que sofrera bastante, porque se tinha esquecido de felicitar um velho amigo que atingira os noventa anos. Mas continuava a ter uma vida normal, apesar de um triste acontecimento que viveu o haver ferido profundamente: a sua esposa faleceu.
Telefonara-lhe para o seu telemóvel, mas não obtivera qualquer resposta. Tentou, depois, chamá-lo pelo seu número telefónico de casa, mas também sem resultados positivos. Isto preocupou-o, tanto mais que não era hábito ter dificuldades de que ele o atendesse. Começou, assim, a congeminar que a falta de respostas teria algo a ver com o seu esquecimento de o felicitar, como era costume, nos seus aniversários. Efectivamente, já se tinham passado mais de quatro dias sobre o evento, pelo que punha a hipótese do seu amigo, que jamais deixava de o felicitar quando ele fazia anos, se ter sentido mal disposto com o seu silêncio em data tão relevante.
Passaram-se mais alguns dias, e não lograva falar com ele, tanto mais, que com toda a sinceridade, costumava receber com alegria e satisfação quaisquer tentativas de contacto que ele fizesse. Silêncio absoluto... Como proceder? Tentou, inclusivamente visitá-lo para lhe pedir desculpa, mas a casa estava fechada e nenhum sinal do amigo o assinalava.
Esperou mais uns dias, sem voltar tentar encontrá-lo. Cada vez mais preocupado, decidiu-se, de novo, a chamá-lo pelo telemóvel. E, curiosamente, recebeu resposta.
“Então”, ouviu a sua voz inconfundível, “algum problema?”
Respondeu-lhe com um certo receio. “Sim, esqueci-me de te dar os parabéns no dia dos teus anos..”
“Essa é boa...Eu fiz anos? Como é isso?”
“Não fazes anos no dia 10 de Setembro?”
“Tens razão”, respondeu. “Nem me lembrei...”
“Como é possível que te esqueças duma coisa dessas?”
“A razão é muito simples... Casei-me. Não tive filhos. E quem disso me lembrava era a minha mulher, que me dava logo os parabéns, mal eu despertava do sono... Foi-se embora de vez, há quase um ano... Eu bem vou visitá-la ao cemitério... Mas ela já não está aqui para me felicitar...”
Perguntei-lhe: “ Se eu te convidar para almoçar, aceitas?”
“Muito obrigado. És um bom amigo... Vamos a isso!”