Faltam cerca de dois anos para os próximos Jogos Olímpicos, e pode ser tentador pensar que há tempo de sobra. Mas uma nação desportiva que queira efetivamente mudar de patamar nunca trabalha com um horizonte de dois ou quatro anos. Trabalha, sempre, com um horizonte de doze anos, ou mais. Os resultados de alto rendimento são construídos muito antes de qualquer ciclo olímpico começar a contar. Por isso, todos os agentes do sistema, federações, associações regionais, clubes e entidades de formação desportiva, têm de estar alinhados com esse horizonte, e não apenas com o calendário da próxima competição.
Esse alinhamento não se decreta, constrói-se. Uma federação pode, por si só, ter um plano bem estruturado, com as pessoas certas na liderança e na sua tecnoestrutura. Mas esse plano só se torna real quando a federação, as suas associações e os seus clubes falam a mesma língua, com particular atenção na formação de treinadores, desde a base até ao alto rendimento. Não se constroem atletas de rendimento rodeados de um ambiente de rendimento médio. Quanto mais cedo se mudar, se for caso disso, e se começar a trabalhar neste sentido, de forma estável e sustentável, mais cedo se atingem e, sobretudo, se consolidam resultados de alto rendimento.
É este trabalho de longo prazo, e não apenas os resultados de um ciclo olímpico, que deveria estar no centro da forma como avaliamos também uma liderança. Porque é tentador julgar uma liderança apenas pelos números que apresenta, no âmbito dos orçamentos geridos, dos eventos organizados ou dos atletas federados. Esses indicadores continuam a importar, e continuarão sempre a importar. Mas deixaram de ser suficientes. Espera-se hoje dos dirigentes algo mais amplo, que represente simultaneamente desenvolvimento estrutural e resultados internacionais. Uma federação que apresente bons números de participação, mas nenhuma presença competitiva internacional, falha tanto quanto uma federação que apresenta bons resultados pontuais sem qualquer base sólida por trás.
Será por isso importante, depois dos próximos Jogos Olímpicos, fazer uma avaliação intermédia, ponderada e séria, por parte dos seus agentes, de quem lidera as federações. Não para julgar pelo resultado de um único ciclo, mas para perceber se o trabalho de fundo está de facto a ser feito, se o alinhamento entre federação, associações e clubes existe na prática e não apenas no papel, e se a formação de treinadores está a acontecer com a consistência necessária. Essa avaliação deve servir sobretudo para alterar comportamentos onde for preciso, corrigir trajetórias e reforçar o que está a funcionar. Mas se essa mensagem não for entendida, se a avaliação intermédia continuar a ser ignorada ciclo após ciclo, então a mudança terá de acontecer de outra forma, a começar pela liderança.