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Entre o apito e a consequência

O último jogo do campeonato nacional de futebol no Dragão expôs, mais uma vez, um estado de “guerrilha” entre clubes, muito para além da rivalidade, que nada beneficia a modalidade e o desporto nacional. Claro que a arbitragem é uma das áreas mais sensíveis do futebol profissional, mas elas não podem ser o foco do desenvolvimento desportivo e do próprio espetáculo. 

Há necessidade de refletir profundamente sobre dois temas: as nomeações dos árbitros e as penalizações dos agentes perante atos de indisciplina e desrespeito. 

Na arbitragem, não basta que as decisões sejam tecnicamente corretas: é igualmente necessário que o processo que conduz à escolha dos árbitros seja percebido como independente, transparente e resistente a qualquer suspeição. O Conselho de Arbitragem da FPF tem competência para estabelecer os critérios de nomeação e designar as equipas de arbitragem das competições profissionais. O problema começa quando a gestão das nomeações deixa espaço para dúvidas. A repetição de determinados árbitros, dos responsáveis pelo VAR ou assistentes em jogos de clubes com elevada exposição mediática pode ser perfeitamente justificável por critérios técnicos, classificação, disponibilidade ou dificuldade dos encontros. Mas, se esses critérios não forem suficientemente conhecidos e explicados, a perceção pública rapidamente substitui a explicação regulamentar. É uma questão de confiança. A solução não passa necessariamente por retirar poder ao Conselho de Arbitragem, mas por tornar o exercício desse poder mais transparente. A FPF já assegura a divulgação pública das equipas nomeadas para cada jornada. O passo seguinte deveria ser explicar melhor por que razão determinadas escolhas são feitas. Esta transparência não deve ser encarada como uma ameaça à autoridade da arbitragem, pelo contrário, é uma forma de a proteger.

O escrutínio que é feito aos árbitros, também deveria ser feito a todos os agentes envolvidos. As multas para uma estrutura profissional deveriam ser mais significativas, capazes de dissuadir determinados comportamentos. Perante atos de indisciplina e falta de respeito ético e desportivo, o Conselho de Disciplina deveria atuar sem contemplações, de forma a responsabilizar os atos, independentemente, das cores das camisolas e ou interesses clubísticos. A história do futebol tem demonstrado que há necessidade de paz, competitividade e regulação. A FPF não pode deixar-se influenciar pela grandeza dos clubes, todos temos de entender que atos de violência verbal, gestual ou física, devem ser erradicados dos campos, pelo que a sua ação deve ser exemplar, para que todos confiem que podem entrar em campo sob as mesmas regras. E todos percebam que quem nomeia os árbitros, os árbitros, os jogadores, treinadores e staff, para além dos adeptos, todos, têm de encarar a competição com inteira responsabilidade e que pode haver consequências severas e relevantes (desportivas e financeiras).

Carlos Dias

Carlos Dias

25 setembro 2026