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O preço da instabilidade

Há expressões que parecem pertencer apenas aos telejornais: guerra, sanções, Estreito de Ormuz, inflação, eleições alemãs, extrema-direita, sondagens. Mas depois chega segunda-feira, o depósito do carro está vazio, o supermercado voltou a ficar mais caro e percebemos que a geopolítica afinal também entra em casa. Entra pela bomba de gasolina, pela conta da luz, pelo preço do pão, pela prestação da casa e pelo salário que, mesmo quando sobe, raramente acompanha a velocidade da vida.

Portugal não está em guerra. E ainda bem. Mas muitos portugueses vivem já sob uma espécie de cansaço económico permanente. Não é a pobreza absoluta de outros tempos, nem a miséria que vemos, com horror, nas imagens da Ucrânia, do Médio Oriente ou de tantas outras geografias feridas, mas é a sensação de que o mês ficou mais comprido do que o ordenado.

James Carville, estratega de Bill Clinton, tornou célebre a frase “é a economia, estúpido”. Quando a vida aperta, tudo passa pela economia. Podemos discutir grandes reformas, alianças internacionais, transições energéticas e equilíbrios europeus, mas o cidadão comum pergunta primeiro quanto custa encher o depósito, quanto sobra da renda e se tem dinheiro para pagar uma alimentação condigna para a família e para a educação dos filhos

A guerra na Ucrânia mostrou-nos que a paz europeia era mais frágil do que julgávamos. A tensão com o Irão e a instabilidade no Golfo lembram-nos que uma parte essencial da energia mundial continua dependente de rotas vulneráveis, decisões militares e equilíbrios diplomáticos instáveis. Um míssil longe de nós pode transformar-se em mais alguns cêntimos por litro no posto de abastecimento. A globalização prometeu aproximar mercados; aproximou também os choques.

E é aqui que a política começa a mudar. Quando as pessoas sofrem durante muito tempo, deixam de querer apenas explicações. Querem responsáveis. Querem culpados. Querem alguém que fale claro, mesmo que simplifique de mais. A subida de partidos classificados por muitos analistas como direita radical ou extrema-direita na Europa, da Alemanha a França, de Itália a Portugal, não pode ser lida apenas como um acidente eleitoral ou como uma extravagância dos eleitores. É também um sintoma.

Na Alemanha, os resultados recentes mostraram o crescimento da AfD e a erosão dos partidos tradicionais. Em Portugal, as sondagens têm colocado o Chega em níveis muito expressivos. Podemos gostar ou não gostar destes fenómenos, mas ignorá-los seria o pior erro. Uma democracia madura não deve começar por insultar quem vota de forma diferente; deve perguntar que medos, que ressentimentos e que abandonos tornaram esse voto possível.

O sociólogo António Barreto escreveu muitas vezes sobre a transformação portuguesa e sobre a nossa relação difícil com a Europa, o Estado e a sociedade civil. Portugal modernizou-se muito, mas nem sempre conseguiu aproximar o poder das pessoas. O norte-americano Robert Putnam falou da perda de “capital social”, isto é, da quebra dos laços de confiança, vizinhança e participação cívica. Quando as pessoas deixam de confiar umas nas outras e nas instituições, a democracia enfraquece por dentro. Michael Sandel, filósofo político norte-americano, tem insistido noutra ideia importante: a política contemporânea não falha apenas quando distribui mal o dinheiro; falha também quando retira dignidade. As pessoas querem respeito. Pedem que a sua vida concreta entre no discurso público.

O custo de vida não é apenas um tema económico. É um tema moral e democrático. Quando uma família trabalha, cumpre, paga impostos e mesmo assim vive em sobressalto, algo se quebra. Quando um jovem não consegue sair de casa dos pais, quando um reformado escolhe entre aquecer a casa ou comprar medicamentos, quando um trabalhador gasta uma fatia crescente do salário para se deslocar, não estamos perante estatísticas: estamos perante vidas.

Portugal precisa de olhar para o preço dos combustíveis, da habitação e da alimentação não como episódios passageiros, mas como sinais de uma fragilidade mais profunda. Um país onde trabalhar não chega para viver com descanso é um país que prepara más respostas para boas perguntas.

A democracia não sobrevive apenas com eleições. Vive quando as pessoas sentem que a sua vida importa entre uma eleição e outra. E hoje, para muitos portugueses, a vida está demasiado cara, o mundo demasiado instável e a esperança demasiado cansada.

Carlos Vilas Boas

Carlos Vilas Boas

24 setembro 2026