Perante os avanços da tecnologia, sou analfabeto. Na verdade sou apenas um ser analfabeto dessas coisas a que chamam tecnologia. Se fosse uma leitura, seria apenas alguém que soletrava sem saber ler de “carreirinha”. A tecnologia converteu a minha sociedade que era arrogante e vaidosa do que era, numa sociedade de ignorantes e, a cada passo que dá para a frente, nós damos três ou quatro para trás. Então sou um inimigo dessa ciência mágica que transformou o velho conhecimento numa coisa de artesanato que, como se sabe, acabou com a manufaturação em industrialização? Não sou porque me transformei num admirador do que avança e nunca um saudoso do que já foi e não é, nem jamais voltará a ser. Veio a televisão e eu fiquei extasiado; veio o computador e eu fiquei boquiaberto, vieram os telemóveis e eu disse, “pode lá ser?” Depois os robôs humanoides! Fiquei perplexo e simultaneamente fascinado e interroguei-me: como é possível o homem fabricar aquilo que o pode substituir? Mas a verdade é que pode. E sempre me arrastei na esteira da voragem da evolução. Agora fala-se com medo da inteligência artificial e eu, como os navegantes tinham medo do Adamastor, também receio essa IA que diz poder acabar com a nossa geração. Mas o mesmo diziam da força atómica e, no entanto, vai-se empregando em coisas úteis como a produção da eletricidade; assim se espantaram aqueles que viram a alunagem. Quando não se sabe o que é a coisa nova, inventam-se deuses como patronos e restauramos a mitologia. Mas a verdade é, como disse alguém, a tecnologia é tão maravilhosa que seria um desastre não a divulgar. Gosto dela por ser o futuro, futuro que já não será para mim, mas consola-me a ideia de um dia os meus netos serem capazes de substituir membros e órgãos humanos com a facilidade e ajuda dessa IA. Esta capa de regozijo é um manto que estendo a meus pés com a sensação de que tudo pode ser, porque já se vê, desde a televisão até à montagem de automóveis e no telemóvel, nos e-mails, no correio eletrónico, no envio de mensagens, ou nas redes sociais. Então se tudo isto é presente porque não imaginar a sociedade do futuro? Esta é, certamente, a escapatória ou a compensação que arranjo para a minha impossibilidade de caminhar atrás dela, como um coxo. Vou atrás, é verdade, mas continuo a querer estugar o passo para não deixar fugir esta tecnologia que fez de mim um analfabeto.
Sou analfabeto
Paulo Fafe
21 setembro 2026