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Quando as tecnologias podem marginalizar

Não é tão pouco habitual como possa parecer que haja pessoas que são expostas à marginalização pelo simples facto de não ‘dominarem’ as tecnologias assaz vulgarizadas: quando se pede a uma pessoa que indique o seu email, quando se lhe solicita que diga o telemóvel ou quando se quer que aceda a uma informação usando o QR-code ou algo que implique manuseamento das subtilezas da internet e de seus sequazes… Este complexo processo de lidar com as tecnologias pode ter várias interpretações. Tentaremos abordar este tema, esmiuçando os itens do título deste texto: quando – tecnologias – marginalizar. 

 

1. As duas últimas décadas e meia – isto é, no século XXI – trouxeram grandes mudanças no campo da comunicação. Já não precisamos de estar num lugar fixo para atender o telefone, pois se vulgarizou o uso do telemóvel, incluindo as fartas listas telefónicas que desapareceram. Outro tanto se diga das cartas escritas e recebidas, dos postais enviados ou rececionados… Quando todos viam os mesmos canais televisivos e trocavam impressões e piadas a partir da mesma fonte de informação ou de entretenimento. Quando se notava uma espécie de uniformidade pela negativa e quase todos seguiam idêntica promoção de cromos sociais, figuras desportivas ou atores de qualidade e reconhecido mérito… Parecia quase tudo cinzento no conteúdo e mesmo na forma! Esse quando teve mutações significativas e, nalguns casos, trouxe mudanças culturais e, porque não, atritos geracionais.

 

2. Ainda valerá a designação de ‘novas tecnologias’? Para os que nasceram na transição de um para outro milénio muito se modificou na compreensão das pessoas, do ambiente e até na ecologia. Aquilo que era ‘novo’ para uns, tornou-se normal para uma razoável maioria, desse os mais novos e até dos mais velhos: com que destreza vemos certos octogenários dedilharam no telemóvel ou usarem as redes sociais como se tivessem sido um campo da sua instrução e mesmo educação. Manusear o cartão multibanco ou usufruir dos serviços da ‘via verde’ são hoje tarefas normais para boa parte da população. Comunicar por alguma aplicação ou ser membro de um grupo mais restrito é coisa vulgar ou não o ser como que se torna fazer parte da lista dos infoexcluídos. Como se dizia noutras épocas: estar neste ambiente não acrescenta muito, mas não estar aí coloca de parte quem não está…

 

3. Sobretudo depois do tempo da pandemia – março de 2020 a maio de 2023 – foi crescendo a configuração de algum individualismo – na vertente mais atroz do egoísmo numa espécie de egolatria – mesmo que usando (ou abusando), com habilidade e artimanha das possibilidades tecnológicas. No entanto, foram emergindo episódios de marginalização, uns mais tácitos com outros concomitantemente mais explícitos. Para além dos ‘casos’ aduzidos na abertura deste texto, há situações que roçam a exclusão, umas vezes por incapacidade de adequação às ferramentas, outras por resistência à mudança ou até por conveniência e resguardo dos dados expostos. Não será que o tecnológico alterou o antropológico? Já percebemos as consequências dessas alterações?

 

4. «É preciso iniciar um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso. Se nos limitarmos às contingências, corremos o risco de deixar que uma série de emergências decida, em nosso lugar, a direção do caminho. Estamos a viver uma rápida fase de transição, uma “mudança de época” em que, enquanto alguns disputam o futuro das novas tecnologias e outros se dedicam à reflexão sobre elas, a maioria das pessoas permanece a aguardar, observa de longe, simplesmente esperando que tudo corra bem. Exatamente por isso, impõem-se à nossa consciência questões decisivas, que não podem já ser evitadas: Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?» (Leão XIV, Carta encíclica ‘Magnifica humanitas’ sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, maio de 2026, n.º 6). Esta é a palavra da Igreja. Que sejamos minimamente humildes para a acolhermos e ajudemo-nos a entendê-la com a voz de Deus para este tempo…

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

21 setembro 2026