No passado dia 14 de setembro, coube-me dar as boas-vindas aos alunos da Faculdade de Teologia, em Braga, e proferir o discurso que, agora, publico.
“Caros alunos, é com muita alegria que vos acolhemos, no início de mais um ano letivo. Um novo ano traz consigo o reencontro, novas amizades, desafios, perguntas e, sobretudo, oportunidades para crescer. Aos que chegam pela primeira vez e aos que regressam depois de um caminho já iniciado, quero deixar uma palavra de boas vindas e a certeza de que esta é também a vossa casa.
Começar um novo ano é sempre uma forma de recomeçar. Trazemos connosco aquilo que vivemos, aprendemos e experimentámos, mas somos convidados a não ficar prisioneiros do passado, pois cada ano académico abre diante de nós uma página nova. E talvez seja esta uma das primeiras atitudes que a Teologia nos ensina: a capacidade de permanecer disponíveis para a surpresa de Deus.
Estudar Teologia não é apenas adquirir conhecimentos sobre Deus, a Bíblia, a história da Igreja, a liturgia ou a tradição cristã. É, antes de mais, deixar que a pergunta por Deus atravesse a nossa existência. A Teologia não é só uma matéria que estudamos, mas também uma procura que nos transforma e cria um estilo de vida. Por isso, não tenhais medo das perguntas e das dúvidas; de pensar, investigar, comparar, procurar e discutir. Uma fé adulta não deixa de fazer perguntas, aprende é a perguntar sem perder a confiança. A Teologia nasce desse encontro entre a inteligência que procura e o mistério que, deixando-se entrever, nos remete para a sua etimologia, o lugar do silêncio.
Não esqueçamos que a Teologia é uma ciência que se faz em comunidade. Ninguém estuda sozinho, mesmo quando o faz a sós, diante de um livro. Precisamos dos professores, dos colegas, dos autores que nos precederam, da tradição viva da Igreja e, acima de tudo, uns dos outros. A Teologia pede inteligência, mas também humildade; rigor e igualmente paixão; estudo e silêncio. Há coisas que os livros nos ensinam e há outras que só aprendemos quando escutamos a Palavra, rezamos e reconhecemos Deus na vida concreta das pessoas.
Não estudamos Teologia para saber mais do que os outros, mas para servir melhor, para compreender a fé que professamos e poder anunciá-la com inteligência e humildade; para acompanhar quem procura, dialogar com quem pensa de modo diferente, responder às perguntas do nosso tempo sem medo e sem superficialidade.
Vivemos num mundo que, apesar de ter muitas respostas, debate-se com inúmeras perguntas sobre o sentido da vida, o sofrimento e a verdade, sobre Deus e o futuro da humanidade. E é neste mundo que a Teologia tem algo a oferecer: não uma palavra arrogante ou fechada, mas capaz de escutar, dialogar e abrir caminhos de esperança.
A maior tarefa que vos espera é aprender a pensar a fé e a viver aquilo que pensais. Porque uma Teologia que não toca a vida corre o risco de se transformar num exercício meramente intelectual; assim como uma vida cristã que deixa de pensar a fé torna-se frágil diante das perguntas do mundo. O importante é, por isso, sabermos unir a inteligência que procura e o coração que se deixa transformar.
Aos alunos que agora iniciam o seu percurso, desejo coragem. Não tenhais receio daquilo que ainda não sabeis. Toda a aprendizagem começa por um primeiro passo e por reconhecer que temos sempre muito a descobrir. Aos que já percorrem este caminho há algum tempo, desejo perseverança. Algumas matérias são exigentes, o cansaço pode aparecer, talvez nem sempre encontreis respostas imediatas para as vossas perguntas. Continuai a procurar, pois o próprio caminho faz parte da resposta.
E a todos desejo que, no final deste ano, não sejais apenas alunos que sabem mais, mas pessoas que cresceram e se tornaram melhores; que cresçais na inteligência e na liberdade, no conhecimento e na sabedoria, na capacidade de argumentar e na de escutar. Em suma, que cresçais na fé e também na capacidade de dialogar com quem acredita de modo diferente ou nem sequer acredita. Desejo que nunca percais a alegria de procurar. A nossa academia ganha sentido e força quando cada um encontra nela um espaço onde pergunta, aprende, discorda, aprofunda, amadurece e, sobretudo, descobre que a Teologia não é um caminho para possuir Deus, mas para nos deixarmos possuir pelo Mistério que contemplamos.
Comecemos este novo ano com confiança. Que seja um tempo fecundo de estudo e descoberta, de amizade e responsabilidade, de perguntas e respostas, de inteligência e fé. E que, no meio das páginas que abrireis, dos livros que ides ler e das aulas que frequentareis, nunca vos esqueçamos de que, por detrás da pesquisa teológica, está uma pergunta maior: quem é Deus na nossa vida e quem somos nós diante d'Ele?
Que este ano seja um tempo de encontro entre diferentes sensibilidades, experiências, percursos e modos de olhar o mundo e a Igreja. A diversidade não pode ser motivo de divisão, mas uma oportunidade para alargar o olhar e acolher a diferença.
A todos, desejo um excelente ano letivo, cheio de esperança, de entusiasmo e de bons encontros. Que este novo percurso seja, para cada um de vós, um caminho de conhecimento, de crescimento, de encontro com Deus e com os outros neste estaleiro acolhedor, a nossa Universidade, que, a partir de agora, é a nossa casa comum. Vamos habitá-la com a alegria e o encanto de quem se sabe amado e acolhido”.