Em Xavier Zubiri (1898-1983), «no que respeita a Deus, o mais difícil não é descobri-Lo, mas encobri-Lo».
É por isso que a sua arquitetura filosófica tem uma radicação – e um horizonte – medularmente teologal. Pelo que o autor, mais do que um filósofo, pode ser descrito como um autêntico «teofilósofo».
Da sua vasta, consistente e muito ponderada bibliografia pouco transparece da sua tumultuosa biografia, pelo menos até finais da década de 1930.
Devemos ao seu epistolário, publicado em 2024, o conhecimento de algumas tormentas por que passou na juventude e no início da idade adulta. Daí que não se tenha coibido de sinalizar que «viver é gastar-se».
Para grande alegria dos seus pais (Miguel e Pilar), recebeu a ordenação sacerdotal, com quase 23 anos, a 21 de setembro de 1921. Nesse mesmo ano, porém, começou a externalizar um irreprimível desalento.
A Eugenio Ímaz confessa mesmo que «o seu abatimento não tem limites». Não esconde inclusive que «nunca sentiu tanta indiferença como no dia da sua ordenação».
Esta frieza já vinha de trás. Admitiu sem rebuço a sua resistência à direção espiritual, assumindo que a ascética era «algo maquinal». Apenas a Liturgia o cativava, mas unicamente pela dimensão estética.
Em março de 1922, «chora a desgraça de uma vida que aos 23 anos viu perder toda a frescura e energia».
Não hesita em declarar categoricamente: «Não creio nem posso crer. Porquê? Não sei. Só sei que perdi a fé».
O caso tornou-se conhecido. O Padre Xavier Zubiri deixou de celebrar regularmente a Eucaristia e os seus pais cobriram-se de desgosto instando-o a afastar-se das ideias que o filho fora incorporando.
Recomendações não lhe faltaram. Domingo Lázaro, intentando animá-lo, endossa-lhe a certeza de que «Deus amanhecerá».
Ao mesmo tempo, sugere-lhe que deixe «certas leituras. Desça das alturas do pensamento puro, pois a nossa realidade não é só pensamento».
O interlocutor, no entanto, mostra-se inflexível: «Tratando-se de mim, sou eu o árbitro das minhas decisões».
Após diligências diocesanas, dirige-se a Roma, solicitando a passagem ao estado laical e a certificação de nulidade da sua ordenação.
A 23 de março de 1936 contraiu matrimónio com Carmen Castro na paróquia romana de Santa Maria in Traspontina.
Muito mais sereno, não omite a sua condição de católico. É de supor, portanto, que a anterior notificação de perda de fé tenha de ser matizada pelo estado de turbulência emocional em que se encontrava.
A sua vida voltou a ser teologalmente centrada, como é possível apurar na monumental obra que nos legou.
Essa obra pode compendiar-se em torno de um duplo eixo: Deus «no» homem e o homem «em» Deus.
O decisivo «entre» Deus e o homem é a mútua presença e a recíproca implicação.
Para Zubiri, «o homem nem necessita de chegar a Deus, uma vez que Deus está sempre presente no homem». Os «caminhos de Damasco» estão repletos de luz (cf. At 9, 3)!