«É necessário repetir uma e outra vez que a Oração Eucarística não é, pelo menos principalmente, uma oração de adoração, mas uma oração de aclamação. Aclamação de um Deus que, em Jesus, ama cada ser humano até à morte». (Chauvet, o.c, p. 89) É ao Cristo desse ‘mistério da fé’ que a Igreja aclama. Em nenhum outro momento a Igreja se manifesta mais como Igreja que quando, de pé, a assembleia faz vibrar as abóbadas da igreja com o seu canto de aclamação, anunciando como Boa Notícia – no meio do mundo e em benefício desse mundo – que «ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos» e que Deus, ao ressuscitar Jesus, lhe deu razão, depois de Ele ter aceitado ser vítima inocente desse amor forçosamente desarmado perante a violência. (P. 90)
A Igreja nunca é mais Igreja do que quando anuncia e celebra um Deus cuja omnipotência se manifesta na vulnerabilidade do amor. «Esta é a sua missão: manter viva no coração do mundo e em seu favor, a memória daquilo pelo qual Deus, em Jesus, deu a sua vida e porque Deus O ressuscitou dos mortos. Manter viva essa memória apesar de tudo: o esquecimento ou a negação que a todos nos ameaçam; a contradição que supõe a violência dos homens: violência das guerras, violência económica, violência ecológica, violência política. Em suma, tudo aquilo que designamos por ‘pecado’.
A memória da Igreja está viva, não como a memória de um computador, mas num sentido existencial: a memória que não esquece as dificuldades do passado. Através da Eucaristia, as nossas vidas são chamadas a mobilizar-se para que «agora e por todos os séculos dos séculos’, seja realidade na nossa vida e na do mundo, a vitória do Amor, que é a vitória do próprio Deus. Por isso esta aclamação é cantada, de pé, e não de joelhos, como era a prática medieval que se concentrava toda na presença real. Ainda hoje há pessoas, e em certos meios são muitas, que preferem continuar de joelhos. Quando o Vaticano II retomou a antiga tradição de cantar a aclamação e de pé, não menosprezou essa presença. Pelo contrário, valorizou-a. Em vez de seguir a pronunciar de joelhos um canto de adoração que diz que Cristo está presente, reavivou a antiga tradição do canto de aclamação. Um Canto em que não é preciso dizer que Cristo está presente, porque é aclamado como vivo!
A Eucaristia é, fundamentalmente, um memorial: um memorial que aclama e que oferece, como se diz na oração: «ao celebrarmos agora o memorial … nós te oferecemos». Aí está o sacrifício: a oferenda que a Igreja faz da sua própria vida, tomada da oferenda que Cristo fez da sua «para glória de Deus e salvação do mundo». A Instrução Geral do Missal Romano, nº 27, realça bem essa nota: «Na missa ou ceia do Senhor, o povo de Deus é convocado e reunido, sob a presidência do sacerdote … para celebrar o memorial do Senhor ou sacrifício eucarístico».
Devemos ter consciência de que vamos à missa para «celebrar o memorial de Cristo», isto é, para manter vivo no meio do mundo e em favor do mundo aquilo pelo qual Deus entregou a sua vida em Jesus Cristo e o ressuscitou de entre os mortos. (P. 93)
Chauvet insiste nesta ideia até porque está convencido, creio que com toda a razão: «de que muito poucos cristãos, mesmo entre os habituais fiéis da missa dominical, compreendem este ponto chave: o objetivo da Eucaristia é manter viva uma memória que está sempre em perigo de se perder nas areias do esquecimento, do desânimo e da desesperança. Mantê-la viva para que a nossa própria vida cristã se converta em testemunho concreto dela. (P. 93) Não se trata, de maneira alguma, de uma memória nostálgica, mortal. «A Memória da Igreja tem por objetivo alimentar a nossa vida para nela escrever novas páginas, formatadas segundo a lógica do Evangelho. Desta maneira, transforma o presente e prepara um futuro melhor, que alcançará a sua culminação na plenitude do Reino». (P. 94)
O Papa Leão XIV tem insistido muito no poder desarmante da Eucaristia quando vivida verdadeiramente como ela demanda que se faça. As reações das pessoas, mesmo sem, eventualmente, terem compreendido toda a riqueza e profundidade das suas palavras, têm mostrado que, no mais fundo do ser humano, há este «sussurro», como lhe chamou António Banderas, que nos impele a ir ao encontro do único que pode saciar a nossa fome e a nossa sede e capaz de nos transformar em pão de verdadeira vida para o mundo.
Quanto melhor compreendermos a essência da Eucaristia, melhor a poderemos celebrar e muitos mais frutos produzirá em nós e nos outros que connosco se cruzarem nos caminhos da vida. A Adoração tem pleno sentido quando nos remete para a Eucaristia e para a tarefa de eucaristizarmos o mundo, se assim me posso exprimir. Que o mundo também aclame o Deus do amor manifestado na entrega de Jesus Cristo, que por nós morreu e ressuscitou e que continua vivo e atuante, através de nós, especialmente quando celebramos a Eucaristia.