Porque temos tanto medo de dizer “não sei”? Meus caros leitores, hoje vou falar-vos de uma coisa que conheço bem, o “não sei”. Há coisas que sei, outras que julgo saber e muitas sobre as quais não arrisco uma certeza. Talvez seja esse o paradoxo, quanto mais aprendemos, mais percebemos a dimensão daquilo que ignoramos e, se tantas vezes ouvimos que “sim porque sim” não é resposta, confesso-vos que prefiro um honesto “não sei porque não sei” a fingir que tenho uma resposta para tudo.
E talvez o mais curioso seja perceber como isto acontece nas coisas mais simples do nosso dia a dia. Entramos num restaurante, provamos um vinho e alguém pergunta se é bom. Bastam segundos para nos transformarmos em especialistas. “Tem corpo, mas falta-lhe qualquer coisa.” Nunca sabemos exatamente o quê. Alguém recomenda um livro que não lemos e respondemos “Sim, conheço”. Conhecemos a capa e o título, mas fica melhor do que admitir que nunca o abrimos. Até perante alguém que acabámos de conhecer decretamos, ao fim de dez minutos, “já percebi como ele é”. Dez minutos, caros leitores, e já temos uma certeza.
Eu próprio caio nessa tentação, talvez por defeito profissional, porque um professor passa tantos anos a responder a perguntas que acaba por sentir que deve saber sempre o que dizer. Já me aconteceu começar uma explicação cheio de convicção e, a meio, pensar “Eugénio, onde é que te foste meter?”. Nesses momentos, talvez o mais sensato seja parar e admitir simplesmente “Não sei, vou pesquisar”, porque dizer que não sabemos não diminui o professor e pode até tornar a aprendizagem mais honesta.
Sócrates teria escolhido essa hipótese. Na Apologia de Sócrates, Platão conta-nos que Querofonte perguntou ao Oráculo de Delfos se havia alguém mais sábio do que Sócrates, e a resposta foi que não. Sócrates procurou então aqueles que tinham fama de saber e percebeu que muitos ignoravam aquilo que julgavam conhecer. Daí a atitude que a tradição resumiu na conhecida expressão “só sei que nada sei”. Parece pouco, mas talvez seja precisamente aí que começa a sabedoria.
A sabedoria popular lembra-nos que “ninguém nasce ensinado” e que “quem muito fala, pouco acerta”. No entanto, fazemos muitas vezes o contrário. Lemos o título de uma notícia e já percebemos o problema, ouvimos cinco minutos sobre um assunto e já temos uma teoria, começamos por um prudente “não percebo muito disto, mas…” e, pouco depois, estamos a apresentar soluções para a escola, para o país e talvez para a humanidade.
Podemos recorrer a dois grandes mestres para pensar este nosso “não sei”. Montaigne, pensador e ensaísta francês do século XVI, fez da pergunta “Que sais-je?”, “Que sei eu?”, um exercício de humildade intelectual, lembrando-nos de que o nosso saber é limitado e sujeito ao erro. Séculos depois, o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein escreveu o Tractatus Logico-Philosophicus, obra sobre os limites da linguagem e do conhecimento, que termina com a célebre frase “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.” Talvez ambos nos recordem que reconhecer os limites do que sabemos não é fraqueza e que, por vezes, dizer “não sei” é a resposta mais séria.
Meus amigos leitores, preparo esta crónica no café e olho à minha volta, onde quase todos têm na mão esse pequeno objeto que nos dá a sensação de sabermos tudo em segundos. Pesquisamos, recebemos uma resposta e julgamos que sabemos, quando talvez tenhamos apenas informação. Os gregos chamavam episteme ao conhecimento fundamentado e talvez seja isso que hoje nos falte distinguir. Com a Inteligência Artificial, este “não sei” pode ser mais pedagógico do que parece.
Por isso, esta semana experimentem uma coisa simples. Quando alguém vos fizer uma pergunta e não souberem a resposta, resistam à tentação de inventar e digam apenas “não sei”. Vão ver que o mundo continua a girar e, com sorte, até aprendem alguma coisa. E fica, para pensar durante a semana, a afirmação que melhor resume esta crónica.
“Quanto mais aprendo, menos medo tenho de dizer que não sei. Talvez seja uma das poucas coisas que finalmente aprendi.”