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Agostinho «voltou» no século XX?

No longínquo século IV, Santa Mónica esperou cerca de trinta anos – pavimentados com preces e regados com lágrimas – pela conversão do filho, o grande Sábio de Hipona.

Há quase cem anos, Manuel García Morente – ilustre filósofo espanhol – levou cinquenta anos até tomar igual decisão.


 

Às portas da morte, a sua irmã Guadalupe fez-lhe prometer que se, algum dia, a graça de Deus o «capturasse», ele não resistiria.

E, em privado, implorava a persistência de Santa Mónica para que pudesse fazer do irmão outro Santo Agostinho.


 

García Morente nascera católico, embora cedo tenha enveredado pelos caminhos da descrença.

Não obstante, contraiu matrimónio com uma senhora católica que, todos os dias, oferecia a sua vida pela transformação do marido. As próprias filhas eram profundamente católicas. E um dos genros chegou a ser martirizado pela sua militância católica.


 

Nascido em abril de 1886 – há, portanto, 140 anos –, foi muito influenciado pelo pensamento positivista e pela proximidade com colegas afastados da fé.

Daí que – como detalhou Montiu de Nuix – «uma criança católica se tenha transfigurado num jovem sem fé e num adulto que se movia em âmbitos em que latejava uma confrontação entre fé e razão, entre liberdade e religião».


 

O seu pensamento podia ser qualificado como laico. Francisco Ayala não tem dúvidas: «Era Morente uma pessoa de convicções laicas muito firmes, muito arreigadas».

A sua mente estava em pugna permanente com o horizonte transcendente. E, em conformidade, colocou-se ao serviço de uma estratégia naturalista e secularizante.


 

No entanto, mostrou-se sempre muito respeitador da vida cristã da sua família.

Sucede que García Morente foi afastado da academia e ameaçado de morte por um poder com o qual, à partida, até teria afinidades ideológicas.


 

O exílio atravessou-se no seu caminho e a solidão virou o seu entorno. As filhas foram impedidas de se juntarem ao pai. Foi então que, em desespero, chegou a ponderar o suicídio.

Para repousar do vulcão emocional em que vivia, resolveu escutar um fragmento de «L’enfance de Jésus», a primorosa obra de Hector Berlioz. Com a contemplação de tamanha beleza, sentiu crescer as asas da sua alma.


 

Nessa noite – 29 para 30 de abril de 1937 –, encontrou-se verdadeiramente com Cristo. 

Nesse encontro, que denominou «Facto Extraordinário», experimentou o «abraço de Cristo», viu-se «abraçado pelo amor de Cristo, pela Sua ternura e misericórdia».


 

Para José Artigas, a narração deste «Facto Extraordinário» é um «dos frutos autobiográficos mais importantes do espírito humano depois das “Confissões” de Santo Agostinho».

No dia seguinte, tomou uma dupla decisão: voltar a ser cristão e tornar-se sacerdote.


 

Frequentou o Seminário, enquanto lecionava na Universidade, e recebeu a ordenação sacerdotal a 21 de dezembro de 1940.

Acontece que Deus chamou Morente à Sua presença em dezembro de 1942, com apenas 56 anos de idade e dois no exercício do sacerdócio. Afinal, os «caminhos de Damasco» (cf. At 9, 2) nunca estão fechados. Nem totalmente concluídos!

João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira

8 setembro 2026