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A ODISSEIA

1. Há algum tempo arredio das salas da 7.ª arte, vi anunciada, nesta época estival, a exibição do filme de Christopher Nolan, A Odisseia (estreia em Julho 2026). Ora, tendo lido a obra quando era jovem (e até traduzido múltiplas estrofes de cantos do poema), vê-lo era, pois, obrigatório, tanto mais que tinha ouvido ou lido comentários dos mais díspares. Já o insigne filólogo e classicista António Freire, professor jesuíta que foi da Faculdade de Filosofia de Braga, escrevera (1969): "Na Odisseia perpassam, como em fita cinematográfica, os esforços titânicos dum Ulisses, para atingir o seu lar, a solicitude de seu filho Telémaco por o reencontrar, a fidelidade de sua esposa Penélope iludindo com perseverança heróica as esperanças de “pretendentes”, para não falar de outras personagens de provada virtude, como o porqueiro Eumeu, o velho Laertes e, mais que todas, a princesa Nausica (…)". De facto, em 1954, tivemos Ulisses, filme de Mario Camerini, uma superprodução de Dino de Laurentiis, com Kirk Douglas como Ulisses e Silvana Mangano como Penélope/Circe, um filme de uma hora e meia. Em 2026, durante três horas, somos imersos numa realização espectacular, protagonizada por Matt Damon no papel principal, Anne Hathaway como Penélope e Tom Holland como Telémaco.


 

2. Odisseu (Ulisses na versão latina) de Homero é famoso pela sua astúcia e inteligência, o Ulisses de Kirk Douglas, embora astuto, surge mais como herói, e atlético (próprio dos anos 50), já o filme de Nolan presenteia-nos um Ulisses à maneira do século XXI, remoído e perturbado por dez anos de guerra, portanto um Ulisses marcado pelos traumas e pela culpa. Não aguardava, de modo nenhum, uma representação toda conforme ao original do poema épico grego, pois alguma reinterpretação é até salutar, mais ainda neste relato duma longa viagem de dez anos do herói, de regresso a Ítaca, após a Guerra de Tróia, enfrentando inúmeros perigos de monstros e de criaturas míticas, desde o ciclope Polifemo às sereias.

Como sabemos, a estratégia de Penélope para adiar o casamento com os inúmeros “pretendentes” ao trono de Ítaca, baseava-se na astúcia: escolheria um novo marido assim que terminasse de tecer o manto para Laertes, o idoso pai de Odisseu; e que fazia? tecia durante o dia (à vista de todos), à noite desfazia o trabalho. Aliás, é daí (mitologia grega) que vem a expressão “fazer e desfazer como Penélope”. Ela é o símbolo de paciência, que usou a astúcia para proteger o reino e manter a esperança no retorno de Ulisses.


 

3. São muitas as diferenças: a cena do cavalo de Tróia, no poema, é apenas referida (é narrada por Virgílio na Eneida), no filme o episódio é muito explanado (o que se entende). Se os deuses, na Odisseia, constantemente intervêm, no filme quase desaparecem, tornando a história mais psicológica, mais do nosso tempo, com retoques de wokismo. Li algures que extirpar a acção dos deuses num poema de Homero é como fazer uma reportagem de futebol, eliminando o efeito da bola; se tal propósito é difícil na 7.ª arte, Nolan substitui tal efeito pela psicanálise e as perturbações traumáticas da guerra.

Ulisses e os seus companheiros chegam à ilha dos Ciclopes e entram na caverna de Polifemo, um monstro gigante horripilante (e não um homem gigante como na produção italiana) com apenas um olho; quando Polifemo regressa, fecha a entrada da caverna com uma enorme pedra para os devorar. Após estratagemas, no final, Ulisses revela o seu verdadeiro nome, o que faz com que Polifemo peça vingança a Posídon (pai). O episódio mostra a luta entre a astúcia humana e a força bruta.

Se Circe torna os homens em porcos, depois Odisseu torna-se seu amante e os porcos voltam à forma humana, permanecendo na ilha durante um ano, no filme o episódio é diverso e mais breve, sem a longa relação amorosa descrita por Homero – aliás, Nolan expurga o filme de carga erótica. Se a ninfa Calipso mantém Odisseu na ilha durante 7 anos, e Hermes intervém, por ordem de Zeus, para que ela o liberte, agora a relação é reformulada em torno da perda de memória (flor de lótus) e do trauma. Ademais, a ninfa oferece-lhe a imortalidade e a eterna juventude, se ele desistir do périplo e ficar com ela na ilha de Ogígia; embora ela seja bela, a escolha de Ulisses é voltar para a sua esposa Penélope.

Se cremos exagerada a crítica de Olivier Battistini (especialista francês da obra de Homero) ao filme – “Nolan não compreendeu nada do universo moral da Odisseia” –, ela aplica-se que nem uma luva a este episódio. Com efeito, A Odisseia (poema com cerca de 2800 anos) é o primeiro texto que indaga o sentido da vida, apesar da linguagem mitológica; se a tentação é potente e a oferta tentadora, Ulisses rejeita-a, escolhendo o regresso. Escolha fulcral: Odisseu aceita a mortalidade, a finitude da vida; não é a imortalidade que ele prossegue, pois o homem é homem, não é Deus (que não deve desejar ser). Aí radica o sentido da vida humana, a que merece ser vivida. Talvez Homero (ou Homeros, ou “a tradição de autores” que significa) seja o primeiro filósofo grego.

Na senda de Battistini, não entendemos, de modo nenhum, a elisão da cena dos Feácios, que acolhem Odisseu (explanada na produção de De Laurentiis), perante quem ele narra as suas aventuras; no poema, o povo acolhe Ulisses depois de ele naufragar; a princesa Nausícaa encontra-o e leva-o até ao palácio do rei Alcínoo; os Feácios, depois de ouvirem as suas aventuras, ajudam-no a regressar a Ítaca, levando-o de barco.


 

4. Outra diferença: na obra de Homero, Odisseu regressa a Ítaca, derrota os pretendentes, reencontra Penélope e recupera o trono, que é também a restauração da ordem, da paz. No filme, o desfecho é outro: o regresso está envolto na reflexão sobre culpa e as consequências da Guerra de Tróia; não é possível simplesmente voltar a ser quem se era antes da guerra. No filme, a viagem talvez nunca termine, porque, após o regresso, Odisseu e Penélope navegam para Oeste, em direcção ao sol que se põe, enquanto Telémaco torna-se rei (nova geração assume o futuro). Se no filme se associa esse final à ideia de que as civilizações desaparecem e outras nascem, a longa cadeia histórica conduzirá à Grécia, à literatura ocidental e à ideia de civilização que temos hoje…, leitura porventura mais interpretativa que uma explicação de Nolan.

Se produções como esta têm a vantagem de retirar textos clássicos do meio estritamente académico, expondo-os no espaço público (e temos a excelente tradução do Professor Frederico Lourenço), do que há na obra e me parece faltar no filme é a densidade filosófica do poema: a viagem não foi apenas geográfica, mas filosófica.


 

O autor não segue o denominado “acordo ortográfico”

Acílio Estanqueiro Rocha

Acílio Estanqueiro Rocha

5 setembro 2026