Durante anos, Marrocos tem sido visto como grossa causa das toneladas de haxixe que chegam à Europa, r. pela razão da produção de resina de canábis na região do Rife. O facto da África e a Europa estarem próximos tornou este tráfico atractivo: o Mediterrâneo afasta os dois continentes só por dezenas de kms em alguns sítios! A isto acrescem redes criminosas organizadas, desigualdades económicas e forte demanda europeia por derivados de canábis. Tudo isto explica também por que motivos toneladas de haxixe permanecem apreendidas todos os anos. O fenómeno não deve ser encarado só como questão de polícia. É igualmente um problema de saúde pública. O haxixe é uma resina de canábis, amiúde inalada com tabaco afectando atenção, memória, percepção e coordenação mental. “Relaxa”, mas de seguida provoca ansiedade, pânico, paranoia, perigo de acidentes, sobretudo no trabalho e condução. Se consumido com regularidade, prejudica estudos, emprego, relações familiares, saúde mental, podendo gerar impulsos suicidários. Nos jovens os efeitos são multiplicados, pois o cérebro está em desenvolvimento e o consumo ajuda à dependência, desalento e até depressão “tipo capacete”. Prisão mental que pode conduzir à automutilação e suicídio. Causa doenças respiratórias nos pulmões, garganta, dentes e boca. E alergias. Conflitos familiares, absentismo e desistência escolar, menor produtividade, insegurança, etc.. Não esquecendo que o consumo alimenta redes criminosas de tráfico, corrupção e branqueamento de capitais e/ou outras vantagens. A descriminalização ocorrida em Portugal anos atrás para consumo moderado, não legalizou o tráfico lucrativo e muito menos eliminou os riscos para a saúde. A melhor resposta passa por prevenção honesta, apoio às famílias, tratamento das dependências, protecção dos jovens e destruição firme das organizações criminosas. Na região de Rife, Marrocos, a produção de haxixe e exportação às toneladas é também um assunto económico, social e político. Fonte de rendimento de famílias rurais, a cultura de canábis “não encontra” alternativas agrícolas (tão) rentáveis. Já para as máfias internacionais, armadas e com vida de luxo, a resina transformada em haxixe é um negócio de milhões € e $, à medida que a droga corrompe e atravessa fronteiras até ao consumidor. A grande entrada na Europa é Espanha e Portugal. Não esquecendo Itália, Países Baixos e Bélgica. Lanchas rápidas, barcos de pesca, contentores, veículos normais. As redes adaptam-se como os insectos. É habitual interceptar toneladas (v.g. “GNR detém 7 pessoas e apreende mais de 5 toneladas de haxixe no Guadiana com apoio da Guardia Civil espanhola”, Euronews, 28/8/26, etc.) que são apenas a amostra. Entram milhares de toneladas ao lado. Não há um Donald Trump para bombardear. A produção de canábis para fins medicinais na Europa não diminuiu o tráfico de Marrocos. O crime organizado do haxixe adora a lavagem de dinheiro, corrupção, tráfico de armas e pessoas vulneráveis. Além de imigrantes ilegais, e até terroristas, como em Ceuta, Melilha e Canárias para, no meio, espalharem “delegados”. São corrompidos funcionários e autoridades locais, mas também são gastos de boa-fé milhões em polícias, alfândegas, Tribunais e sistemas prisionais que são mobilizados para responder a uma acção que se está sempre a metamorfosear. Para lá disto, não esquecer os críticos da ditadura de Marrocos e jornalistas de investigação que têm acusado o poder de Rabat de “tolerância e/ou incapacidade deliberada” perante a produção e exportação de haxixe. “É impossível imaginar toneladas de canábis produzidas, armazenadas, transportadas e encaminhadas para a Europa durante décadas sem conhecimento, corrupção e conivência dentro de estruturas locais, policiais, alfandegárias ou políticas de parte do Estado de Marrocos”. O tráfico de haxixe não se explica só pela criminalidade comum: ele existe num contexto em que a pobreza rural, a procura europeia, redes transnacionais e fragilidades institucionais se alimentam entre si. A repressão, cooperação informacional internacional e vigilância marítima são essenciais. Mas não basta com o aumento da demanda europeia. É preciso investir em alternativas económicas na ruralidade de Marrocos, prevenir e punir o branqueamento (v.g. clubes de futebol, FIFA, partidos políticos, ONG’s!). A apreensão dos lucros é essencial. O capitalismo selvagem alimenta, pois há consumidores, intermediários e estruturas financeiras dispostas a isso. O desemprego entre jovens Marroquinos atinge os alarmantes 40%! O Rei de Marrocos vai nu de Ceuta até ao Mundial 2030?
Toneladas de Haxixe importadas de Marrocos pela Europa
Gonçalo S. de Mello Bandeira
4 setembro 2026