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A quem servir?

1. Quando Patriarca de Veneza, João Paulo I escreveu o apólogo que transcrevo:

«À porta da cozinha estavam deitados os cães. João, o cozinheiro, matou um bezerro e lançou as vísceras no pátio. Os cães comeram-nas e disseram: ‘É um bom cozinheiro’.

Pouco tempo depois, João descascava batatas e cebolas, e voltou a lançar as sobras no pátio. Os cães atiraram-se a elas, mas, torcendo o focinho, disseram: ‘o cozinheiro estragou-se. Já não vale nada.’

Mas João não se importou com esse juízo e disse: ‘É o amo quem tem de comer e apreciar os meus pratos, não são os cães. Basta-me ser apreciado pelo meu amo» (A. Luciani, «Ilustríssimos Senhores», pag. 12).

 

2. Um dos males que nos pode acontecer é deixarmo-nos guiar pelo que os outros pensam ou dizem dos nossos atos. Vivermos preocupados em contentar os gostos, quantas vezes volúveis, da opinião pública. Condicionarmos os nossos atos às sondagens de opinião. Vivermos sobressaltados com o que poderão dizer ou pensar das decisões que tomamos ou dos gestos que fazemos.

 

3. Um homem que se preza tem a grande preocupação de formar bem a própria consciência. Depois, procurará orientar-se por ela e só a ela prestará contas.

O seu grande empenho estará em saber estar onde entende que deve estar, com quem deve estar, quando entende que deve estar, a fazer o que entende que deve fazer e a dizer o que deve dizer.

Não há como o homem que é senhor de si mesmo, que se conduz pelos seus critérios e princípios, que sabe haver uma única pessoa que o há-de julgar imparcialmente: Deus.

 

4. Isto de viver na dependência dos votos que caem nas urnas obriga a muitos gestos de servidão, a muita mentira, a muita hipocrisia.

Isto de depender da escolha do líder dá origem a muitos gestos de servilismo.

Não há como as votações por voto secreto. As votações de braço no ar, de que abusaram certos partidos em assembleias gerais realizadas nos começos do que chamaram o nosso Portugal democrático, contribuem para condicionar a liberdade dos votantes.

Tem havido quem, para obedecer à disciplina partidária, deixe de obedecer à própria consciência. Liberdade e dependência nem sempre casam. A defesa do tacho impõe o silenciamento de muitas consciências.


 

5. Queiramos ou não, todos estamos ao serviço de alguém. A quem é que, na realidade, importa servir?

Lembro o que se diz de S. Cristóvão, um barqueiro possante que ajudava as pessoas a passarem de uma para a outra margem do rio. Desejoso de transportar em seus ombros o homem mais poderoso do mundo concluiu que este não era o imperador romano, não era o diabo, mas um menino; Jesus. E passou a ver Jesus nas pessoas a quem prestava os seus serviços.

É com este espírito que um cristão serve as pessoas: vendo nelas Jesus. E é esse o significado atribuído, em grego, ao vocábulo cristóvão: aquele que carrega Cristo.

 

6. Quando, tendo partido daqui, nos encontrarmos com Jesus é isto mesmo que nos é dito: «Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo» (Mateus 25, 34-36).


 

7. Voltando a S. Cristóvão: Há uma tradição lendária segundo a qual o que veio a ser chamado Cristóvão, o tal possante barqueiro, alimentava a ambição de transportar em seus ombros o homem mais poderoso do mundo. Um dia apareceu um menino a pedir que o transportasse. Pô-lo às costas e, à medida que ia avançando, o menino cada vez pesava mais. Ao pousá-lo desabafou: parece que trazia o mundo às costas. Foi precisamente o mundo que trouxeste, respondeu o menino, que era Jesus.

Silva Araújo

Silva Araújo

3 setembro 2026