Todos os anos, depois da silly season, chega o momento em setembro em que todos começamos a apostar na aprovação ou não do Orçamento do Estado. Há anos em que o desfecho aumenta claramente as odds de quem aposta no chumbo do orçamento, mas este ano essa probabilidade não atinge percentagens elevadas. Este Orçamento do Estado será, provavelmente, aprovado pelo Partido Socialista, com votos contra do Chega.
Isto demonstra dois aspetos a que temos assistido neste verão e que apenas são realçados pelos pequenos factos políticos que todos os dias aparecem nas notícias e alimentam uma bolha de comentadores em Lisboa: 1.º Os portugueses estão contentes com a governação do PSD e não reconhecem mais ninguém como possível primeiro-ministro; 2.º O Chega, mais do que um partido antissistema, quer ser o partido do sistema e, por isso, corre em pista própria.
Neste sentido, a economia portuguesa apresenta sinais bastante positivos. Apesar de vivermos uma das maiores crises da habitação na nossa história, este Governo conseguiu que muitos jovens obtivessem uma primeira casa através da garantia pública do Estado, tendo sido um dos governos mais fortes no apoio aos jovens, através do IRS Jovem. Portugal é hoje um país em que os mercados acreditam, tendo uma capacidade de financiamento que, para muitos, seria impensável há uns anos.
Neste cenário, José Luís Carneiro não é um experimentalista ou revolucionário como Pedro Nuno Santos e, por isso, sabe que provocar eleições nesta altura seria o suicídio político do PS. O seu juízo será fundamental para garantir um bom futuro ao partido. Além disso, temos um Chega que grita contra tudo e todos e, quando esprememos o seu discurso, continuamos sem encontrar uma única medida com o pendor de transformar Portugal. Aliás, esse sumo de ideias, quando espremido, resulta apenas em casos dignos da Netflix: assaltos a gabinetes, furtos de malas e cenas de violência dentro do próprio partido. A ideia do Chega é ser uma anti-ideia e, por isso, serviu tanto como um guarda-sol nesta última semana de agosto.
Estes dois fatores, que nos fazem pensar no regresso à espuma dos dias em setembro, são cada vez mais um motivo para entendermos que a grande reforma desta década deve ser a recuperação de um centro político moderado, forte e capaz de oferecer soluções para Portugal e, sobretudo, para a Europa como um todo.
Como dizia Mark Carney no seu discurso, que marca uma nova forma de pensar a política mundial, este é o tempo daqueles países de dimensão média que representam os verdadeiros valores da democracia, de se juntarem e oferecerem soluções para a classe média e para que os seus países prosperem.
Este Orçamento do Estado demonstra que há uma classe média que quer que esse tempo chegue e que exigirá dos partidos tradicionais a verdadeira reforma: a aposta nos valores democráticos e nos direitos liberais. Construir esta sociedade é entender que, com base nos nossos valores essenciais, temos de voltar a ser competitivos e dinâmicos, assegurando o rigor orçamental e encontrando soluções para temas tão complexos como a segurança, a imigração, a habitação e a inteligência artificial.
Portugal está bem e os portugueses não querem mudanças. Por isso, todos sabemos para que desfecho caminhamos em relação ao nosso Orçamento do Estado: PSD e PS como partidos responsáveis a trabalhar para o país; o Chega, cada vez mais, um espelho do Bloco.