Quem disse que devemos seguir os nossos sonhos? Confesso-vos que sou cada vez mais cético quando alguém garante que basta acreditar para que a felicidade apareça. “Tu consegues”, “não desistas”, “sonha alto”. Tudo muito bonito, meus amigos leitores, mas a felicidade não cai do céu e esses discursos de promessas fáceis nunca foram para mim. A vida é bem mais complexa do que qualquer slogan de coaching.
Ora, setembro é um bom mês para pensar nisto, porque é tempo de regressos, escolas que reabrem e projetos que começam. Fazemos planos e convencemo-nos de que agora é que vai ser, embora saibamos que nem tudo depende da nossa vontade. É nessa distância entre o que desejamos e o que a vida permite que nasce a angústia.
A propósito disto, lembro-me de Divertida-Mente, o filme da Pixar em que as emoções de Riley ganham vida. Durante grande parte da história, a Alegria tenta impedir que a Tristeza ocupe espaço, como se a tristeza tivesse de ser evitada. Aos poucos percebemos precisamente o contrário. Nem sempre temos de estar felizes, motivados ou confiantes. Também a dúvida, o medo e a tristeza fazem parte da forma como vivemos.
E, permitam-me puxar a brasa à minha sardinha, noto uma diferença clara entre ouvir uma palestra de coaching e ouvir um filósofo num PHILOTALKS. Numa, podemos sair convencidos de que basta acreditar mais em nós e avançar. Na outra, saímos talvez com mais perguntas do que respostas e a pensar de outra maneira. E ainda bem. A Filosofia não promete felicidade, não vende receitas para o sucesso e não garante que tudo correrá bem. Obriga-nos a pensar se o sonho é realmente para mim e se vale a pena persegui-lo.
Aliás, essa desconfiança vem de longe. René Descartes usou o sonho para mostrar como podemos confundir o real e a aparência. Sonhamos e, enquanto sonhamos, acreditamos que aquilo é real. Nem tudo aquilo que imaginamos, desejamos ou projetamos merece, por isso, ser seguido.
Séculos depois, Sigmund Freud, fundador da psicanálise, viu nos sonhos uma expressão de desejos, medos e conflitos que nem sempre reconhecemos. Ou seja, meus amigos leitores, até os sonhos podem trazer inquietação em vez de certezas.
É aqui que o filósofo S. Kierkegaard se torna atual ao chamar à angústia “a vertigem da liberdade”. Sermos livres significa podermos escolher, mas também podermos escolher mal. A angústia nasce muitas vezes da consciência de que uma decisão pode mudar o nosso caminho e de que nenhuma escolha vem acompanhada de garantia.
Além disso, nem toda a angústia é um problema psicológico ou um caso de medicina, embora por vezes seja necessário apoio especializado. Há inquietações próprias da condição humana, como perguntar quem sou, que vida quero viver ou se ainda quero aquilo que durante anos pensei querer. São questões que a Filosofia acompanha há séculos.
Precisamos, então, de recuperar um direito de que pouco se fala, o direito de negar alguns sonhos. Goethe mostrou-nos algo disso em Fausto, a história de um homem culto e insatisfeito que faz um pacto com Mefistófeles, figura demoníaca ligada à tentação, porque procura sempre algo que o satisfaça. Nem sempre precisamos de outra carreira, de outra casa ou de outra vida para reconhecer valor naquela que já temos, pois há sonhos que deixam de ser nossos e isso não torna uma vida simples numa vida menor.
Por fim, meus amigos leitores, não nego os sonhos, mas apenas a obrigação de os seguir todos, porque alguns merecem tornar-se projetos enquanto outros devem ficar pelo caminho. Deixo-vos, como sempre, mais uma afirmação para reflexão.
“Sonhar é importante, mas saber abandonar certos sonhos também é uma forma de liberdade.”