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No Século III, os cristãos corromperam a fé com a filosofia pagã

Na senda de muitos outros mitos (alguns deles já apresentados por mim), aquele que motiva as palavras presentes surge na linha de um esforço de demostrar que o Cristianismo se paganizou progressivamente, designadamente devido ao crescente uso de termos vindos das distintas escolas filosóficas pagãs.

Uma paganização que, sobretudo desde o séc. III e segundo quem a defende, corrompeu a fé cristã e afastou-a do espírito original, numa espécie de imensa apostasia que explicaria o (“necessário”) surgir sucessivo de, até então inexistentes, (pseudo-)verdadeiros cristianismos – desde o Protestantismo aos pós-Pentecostalismos de hoje, passando por dezenas de movimentos provindos dos três (ou quatro) “Despertares” religiosos norte-americanos.

Então, que dizer acerca deste mito? Desde logo há que admitir que, apesar de ser um mito, tem um substrato de verdade que o ampara (pese embora não exatamente como os seus defensores advogam). Com efeito, diversos autores cristãos (recordemos os já nossos conhecidos “Apologistas” do séc. II) serviram-se de termos que já eram usados na filosofia pagã. Porém, se o fizeram, foi para melhor comunicarem a mensagem evangélica, através do inculturá-la, clarificá-la-a e organizá-la, mas sem jamais a alterarem ou comprometerem.

O envolvimento com a filosofia pagã não equivaleu a uma decomposição doutrinária por substituição, mas, isso sim, a uma melhor articulação por importação de palavras para que se desse uma exportação de ideias. Ideias estas que, se eram francamente alheias ao âmbito pagão em que tais vocábulos originalmente haviam sido utilizados, foram sustentadas pelos mesmos para que não houvesse um esvaziamento do sentido da mensagem original Cristã.

Esta relação entre o Cristianismo e a filosofia pagã teve diversas facetas e graus de aceitação por parte dos mais eminentes teólogos do séc. III. Vejamos o exemplo de quatro destes.

Clemente de Alexandria foi imensamente otimista no uso das palavras filosóficas não-cristãs do seu tempo. Tertuliano de Cartago questionou, celebremente e no capítulo 7 da obra “Prescrição contra os hereges” (datada de 202), «o que tem Atenas [filosofia] a ver com Jerusalém [fé]?». Mas se o fez, fê-lo apenas no sentido de se dever admitir que o que já fora esclarecido pela fé, não carecia de ser indagado na filosofia pagã.

Orígenes de Alexandria recorreu, quer ao platonismo médio, quer à lógica estoica para construir um quadro abrangente de compreensão da natureza, e da interpretação explicativa, das escrituras cristãs. Acreditando que o Cristianismo era o cume de todas as filosofias, ele chegou a ensinar estoutras como instrumento preparatório para a cognição dos mistérios da fé cristã mais adversos ao paganismo.

Por fim, temos Gregório Taumaturgo. Este discípulo de Orígenes, estimando que a filosofia contém em si mesma uma capacidade criativa naturalmente boa, usou a filosofia grega tradicional para evangelizar a Anatólia (a parte da atual Turquia asiática que vai do Mar Egeu até, a Sul, à Síria dos nossos dias, e a Norte, à Geórgia moderna). De modo especial, ele utilizou algumas das técnicas do diálogo socrático para afastar os seus interlocutores do politeísmo.

Em suma: uso de itens da filosofia pagã para evangelizar, sim; paganizar o evangelho, jamais.

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

29 agosto 2026