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A arte de respirar diante do mistério

Vivemos num tempo em que quase tudo precisa de justificar a utilidade. Caminhamos para melhorar a saúde, meditamos para reduzir a ansiedade, organizamos o lazer para regressarmos ao trabalho mais eficientes. Até o que parecia escapar à lógica do rendimento é convertido em instrumento de otimização pessoal. A espiritualidade corre esse risco. Por isso, convém dizer algo desconfortável: a oração pode fazer-nos bem, mas não existe para nos fazer bem.

Quando é apresentada apenas como técnica de serenidade ou equilíbrio interior, perde-se aquilo que nela é mais radical. Orar não é acrescentar uma ferramenta ao arsenal com que procuramos governar a vida. É consentir, por instantes, em não a governar. Para quem crê, é colocar-se diante de Deus sem o transformar em solução. Para quem não crê, permanece uma pergunta humana: haverá alguma dimensão da vida que aceitemos não reduzir à utilidade?

A oração começa onde cessa o controlo. Na súplica, reconhecemos que não podemos tudo; na gratidão, admitimos que muito nos foi dado; no lamento, recusamos fingir que a dor está resolvida; no silêncio, deixamos de exigir que cada instante produza uma resposta. Nada disto é particularmente eficiente. E é justamente essa ineficiência que torna a oração subversiva numa cultura habituada a avaliar tudo pelo resultado.

É verdade que orar pode pacificar, ajudar a nomear o sofrimento, ordenar a experiência e fortalecer a esperança. Mas estes efeitos não devem ser confundidos com a sua finalidade. Também uma amizade nos faz bem, mas seria empobrecê-la se a procurássemos apenas pelos seus benefícios. Também o amor sustenta a vida, mas deixa de ser amor quando o outro se torna instrumento do nosso equilíbrio. O mesmo acontece com a oração: se procuramos nela apenas aquilo que recebemos, permanecemos fechados no mesmo eu que pretendíamos transcender.

Talvez seja essa a sua força humanizadora. Orar é aprender que a realidade não começa nem acaba em nós. É fazer espaço para aquilo que não controlamos e para um mistério que não se deixa possuir. Essa deslocação liberta-nos da obrigação de nos construirmos incessantemente e de transformar a vida num projeto de aperfeiçoamento.

Por isso, a oração autêntica não nos retira do mundo. Devolve-nos a ele menos autocentrados. Quem aprende a não instrumentalizar Deus — ou, num sentido mais amplo, a não instrumentalizar o mistério — pode também aprender a não instrumentalizar os outros. A atenção torna-se escuta; a gratidão, cuidado; a consciência dos próprios limites, misericórdia. A oração que não desemboca numa relação mais responsável com a realidade corre o risco de ser apenas conforto espiritual.

Importa evitar outro equívoco. Orar não substitui a medicina, a psicologia, a justiça ou a ação política. Não cura todas as feridas nem dispensa decisões difíceis. Uma espiritualidade que promete imunidade ao sofrimento ou transforma a fé numa garantia de sucesso trai a experiência humana que pretende iluminar. A oração não elimina a vulnerabilidade; ensina, quando é madura, a habitá-la sem desespero e sem mentira.

Talvez precisemos menos de perguntar se a oração «funciona» e mais de perguntar o que revela essa necessidade de a fazer funcionar. Nem tudo o que torna a vida humana merece ser avaliado pela eficácia. Há realidades que só permanecem verdadeiras enquanto recusam converter-se em meios para outra coisa: a amizade, a beleza, o amor, a contemplação, a gratuidade.

A oração pertence a esse território. Pode trazer paz, mas não é um sedativo; pode fortalecer, mas não é uma técnica de desempenho; pode consolar, mas não existe para nos poupar ao real. Talvez nos faça bem precisamente porque nos recorda que nem tudo existe para nosso benefício. E, num tempo que transforma quase tudo em recurso, reaprender esta gratuidade pode ser uma das formas mais discretas — e mais exigentes — de permanecermos humanos.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

29 agosto 2026