A história espiritual de Portugal no século XX possui ligações surpreendentes entre algumas das suas figuras mais marcantes. Entre elas encontram-se o salesiano Padre Humberto Pasquale, a Beata Alexandrina de Balazar e a Irmã Lúcia de Jesus, vidente de Fátima. Embora cada um tenha seguido um caminho próprio, as suas vidas cruzam-se em torno de uma mesma missão: acolher, viver e divulgar a Mensagem de Fátima.
Natural de Itália e membro da Congregação Salesiana fundada por São João Bosco, o Padre Humberto Pasquale chegou a Portugal ainda jovem. Missionário, escritor, historiador e profundo conhecedor da espiritualidade mariana, rapidamente se tornou uma das maiores autoridades sobre Fátima, dedicando décadas ao estudo das aparições, à recolha de documentação histórica e à divulgação da mensagem da Cova da Iria em Portugal e no estrangeiro.
Foi neste contexto que estabeleceu uma estreita relação com a Irmã Lúcia. Ao longo dos anos, manteve correspondência com a última vidente, recolheu os seus testemunhos e estudou cuidadosamente os seus escritos. A confiança que Lúcia nele depositava foi tal que, segundo o Padre Pedrosa Ferreira, Humberto Pasquale desempenhou um papel importante no processo que permitiu à vidente deixar a Congregação das Irmãs Doroteias para ingressar no Carmelo de Coimbra, concretizando assim o seu profundo desejo de abraçar a espiritualidade carmelita.
A ligação de Lúcia à Família Salesiana não se limitava ao Padre Humberto. Um dos seus sobrinhos, o Padre José Valinho, professou como Salesiano de Dom Bosco, e vários outros familiares dos Pastorinhos seguiram igualmente a vocação sacerdotal na Congregação Salesiana. Este facto criou uma proximidade natural entre os Salesianos e a família dos videntes, contribuindo para que o carisma de Dom Bosco se tornasse um importante veículo de divulgação da Mensagem de Fátima, sobretudo através das escolas, dos oratórios, da imprensa e da pastoral juvenil.
Mas a missão do Padre Humberto Pasquale não se ficou por Fátima. Em 1944 sucedeu ao jesuíta Padre Mariano Pinho como diretor espiritual da Beata Alexandrina de Balazar. Foi precisamente nesse ano que Alexandrina ingressou na Associação dos Salesianos Cooperadores, passando a viver de forma ainda mais explícita o espírito salesiano de união a Cristo através de Maria Auxiliadora.
Durante os anos em que a acompanhou, Humberto Pasquale recolheu milhares de páginas dos seus escritos, cartas e diários espirituais, preservando um património documental de valor incalculável para a Igreja. Tornou-se também um dos principais promotores da sua fama de santidade e da futura causa de beatificação, dando a conhecer ao mundo uma mulher que transformou o sofrimento numa contínua oferta de amor pela salvação das almas.
O salesiano reconheceu desde cedo que a vida de Alexandrina constituía uma resposta concreta aos pedidos feitos por Nossa Senhora em Fátima. Alexandrina nunca afirmou ter recebido a missão dos Pastorinhos, mas viveu heroicamente aquilo que Nossa Senhora pediu em 1917: oração, penitência, reparação, adoração eucarística e consagração ao Imaculado Coração de Maria.
Existe, aliás, um elo histórico particularmente significativo entre Alexandrina e a Irmã Lúcia. Enquanto Lúcia recebeu diretamente a Mensagem de Nossa Senhora e mais tarde, em 1929, na capela das Doroteias de Tui, recebeu a visão da Santíssima Trindade e o pedido da consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, Alexandrina assumia, anos depois, a missão de viver na própria carne a dimensão reparadora dessa mesma mensagem.
A própria história da Consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria une estas duas figuras. Através do seu primeiro diretor espiritual, o Padre Mariano Pinho, Alexandrina pediu insistentemente que essa consagração fosse realizada pelo Santo Padre. O pedido chegou a Roma e, em 1942, o Papa Pio XII consagrou solenemente o mundo ao Imaculado Coração de Maria, num dos acontecimentos mais marcantes da receção eclesial da Mensagem de Fátima.
Humberto Pasquale compreendeu profundamente esta continuidade espiritual. Nos seus escritos apresenta frequentemente Alexandrina como uma das grandes almas reparadoras suscitadas por Deus na sequência das aparições da Cova da Iria. Para ele, Fátima não terminava em 1917, mas prolongava-se na vida de homens e mulheres que acolhiam os apelos de Nossa Senhora e os transformavam em missão.
Como filho espiritual de São João Bosco, Pasquale via ainda uma profunda sintonia entre a espiritualidade salesiana e a Mensagem de Fátima: o amor filial a Maria, a confiança absoluta na sua proteção, a centralidade da Eucaristia, a preocupação com a salvação das almas e a educação cristã da juventude.
Assim, o sacerdote salesiano tornou-se uma verdadeira ponte entre duas das maiores figuras da espiritualidade portuguesa contemporânea. Através dos seus estudos, publicações, conferências e do acompanhamento pessoal que prestou tanto à Irmã Lúcia como à Beata Alexandrina, ajudou a mostrar que a Mensagem de Fátima continua viva sempre que encontra corações disponíveis para a acolher.
A Irmã Lúcia foi a guardiã da Mensagem. Alexandrina tornou-se a alma reparadora que a viveu de forma heroica. Humberto Pasquale foi o historiador, o divulgador e o mediador entre estas duas grandes testemunhas da fé.
Juntas, estas três vidas recordam-nos que Fátima não é apenas um acontecimento histórico, mas uma escola permanente de santidade. Uma escola onde Maria continua a conduzir a Igreja até Cristo, convidando cada geração à oração, à conversão, à reparação e ao amor pelo seu Imaculado Coração.
Padre Humberto Pasquale, Alexandrina de Balazar e Irmã Lúcia: três vidas unidas por Fátima
Sérgio Carvalho
21 agosto 2026