Há pessoas que, todos os dias, cuidam de alguém sem que esse trabalho apareça nas notícias ou nas prioridades do debate público. Estão em casa, muitas vezes sem horário, sem férias e sem a possibilidade de desligar. São familiares que acompanham pais, filhos, cônjuges ou outros familiares em situação de dependência. São cuidadores informais.
O envelhecimento da população e o aumento das situações de dependência tornam esta realidade cada vez mais presente. Mas reconhecer a sua existência não chega. É necessário criar condições para que estas pessoas possam cuidar sem ficarem sozinhas perante uma responsabilidade que, em muitos casos, assume uma dimensão física, emocional, social e financeira muito significativa.
É neste contexto que a Associação de Cuidadores Familiares e Amigos de Braga (ACFAB) tem desenvolvido o seu trabalho.
A ACFAB nasceu com uma missão que continua a ser necessária: dar voz aos cuidadores familiares, apoiar quem cuida e contribuir para que o papel do cuidador seja reconhecido pela sociedade e pelas instituições. Não se trata apenas de prestar apoio. Trata-se também de criar uma rede, aproximar pessoas, divulgar informação e ajudar a construir respostas para problemas que, demasiadas vezes, permanecem dentro das paredes de casa.
Uma das dimensões mais importantes deste trabalho passa pelo apoio directo aos cuidadores. O Gabinete de Apoio ao Cuidador procura responder a necessidades concretas, orientando quem não sabe a que entidade recorrer, que direitos pode exercer ou que respostas sociais estão disponíveis. Muitas famílias não precisam apenas de informação: precisam de alguém que as ajude a encontrar o caminho dentro de um sistema que pode ser difícil de compreender.
As iniciativas promovidas pela ACFAB têm permitido colocar à mesma mesa cuidadores, profissionais, investigadores, instituições sociais e representantes de diferentes áreas da Administração Pública.
Esta dimensão de rede é particularmente relevante. Nenhuma associação, instituição ou serviço consegue responder isoladamente a todos os problemas de quem cuida. A resposta exige articulação entre saúde, segurança social, autarquias, instituições particulares de solidariedade social, profissionais e, sobretudo, os próprios cuidadores. São eles que melhor conhecem as dificuldades que enfrentam diariamente.
Mas há uma questão que não podemos perder de vista: quem cuida também precisa de ser cuidado.
Durante demasiado tempo, o cuidador familiar foi encarado quase exclusivamente como alguém que presta um serviço à pessoa dependente. Esta perspectiva é insuficiente. O cuidador é também uma pessoa com direitos, necessidades e limites. Precisa de informação, descanso, acompanhamento, reconhecimento e condições para continuar a participar na vida profissional, familiar e social.
É aqui que o trabalho da ACFAB ganha uma dimensão que ultrapassa o apoio individual. Ao dar visibilidade aos cuidadores, a associação contribui para mudar a forma como a sociedade olha para esta realidade. Ao promover encontros e formação, cria conhecimento. Ao estabelecer parcerias, constrói respostas. Ao ouvir os cuidadores, ajuda a identificar problemas que as políticas públicas nem sempre conseguem captar.
A ACFAB mostra que a sociedade civil pode desempenhar um papel relevante neste processo. Não substitui o Estado, nem deve fazê-lo. Complementa respostas, identifica necessidades, aproxima pessoas e leva para o espaço público uma realidade que muitas vezes permanece invisível.
Falar de cuidadores é, afinal, falar de todos nós. Porque a dependência não é uma realidade distante e porque qualquer família pode, em determinado momento, precisar de cuidar ou de ser cuidada.
Dar a conhecer o trabalho da ACFAB é também reconhecer aqueles que, muitas vezes em silêncio, asseguram todos os dias uma parte essencial da nossa rede social. E lembrar uma ideia simples, mas que não podemos esquecer: cuidar de quem cuida é também uma forma de cuidar da nossa comunidade.
*O autor por opção não escreve segundo o novo acordo ortográfico.