Para reflexão neste período de férias: qual é a política cultural que queremos para o concelho?
Não nos referimos, apenas, ao número de espetáculos, concertos, exposições ou iniciativas que conseguimos colocar numa agenda. Referimo-nos a uma estratégia. A uma visão para a cultura enquanto instrumento de transformação social, de valorização do território, de participação cívica e de construção de comunidade.
É precisamente aqui que Braga está a falhar.
Temos programação. Temos equipamentos. Temos agentes culturais de enorme qualidade. Temos património, associações, coletividades, artistas e uma extraordinária diversidade de expressões culturais. Mas continua a faltar aquilo que deveria orientar tudo isto: uma estratégia cultural municipal clara, com linhas programáticas definidas, metas concretas e ações devidamente identificadas e avaliáveis.
Uma política cultural não pode limitar-se a anunciar iniciativas. Deve dizer onde queremos chegar.
Quantos novos públicos queremos conquistar? Que papel queremos atribuir às associações culturais? Como vamos apoiar a criação artística local? Como vamos valorizar o património material e imaterial? Que estratégia temos para as freguesias? Que expressões da cultura popular queremos preservar e promover? Como queremos articular cultura, educação, juventude, turismo e desenvolvimento económico?
O exemplo do Descentrar 2026 é particularmente revelador. Depois de, em 2025, o Município ter anunciado uma edição que chegava a todas as freguesias do concelho, a programação de 2026 abrange apenas 17 freguesias.
Quando algumas freguesias ficam sistematicamente fora das grandes iniciativas municipais de descentralização cultural, estamos também a limitar a possibilidade de essas comunidades apresentarem aquilo que têm de mais genuíno: as suas tradições, os seus grupos, as suas bandas, os seus cantares, os grupos folclóricos, os seus artesãos, as suas memórias e as suas formas próprias de expressão popular. O problema está na ausência de uma política universal e coerente de acesso à cultura em todo o território.
E isso é particularmente grave num concelho como Braga, onde a identidade cultural não termina no centro urbano.
É neste contexto que olhamos para as recentes declarações do Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, quando afirmou que “acabou” a programação pensada apenas para as elites e que hoje existe uma cultura e uma programação para todos.
Concordamos com o princípio fundamental: a cultura deve ser agregadora, plural e acessível.
Mas não devemos cair na tentação de transformar a discussão cultural numa guerra entre cultura “erudita” e cultura “popular”. Uma política cultural verdadeiramente democrática não elimina uma expressão para promover outra. Junta-as. Cruza-as. Dá-lhes espaço. Permite que dialoguem.
E, sobretudo, não devemos escarnecer das linhas programáticas culturais que Guimarães construiu ao longo das últimas décadas.
Guimarães foi Capital Europeia da Cultura em 2012. Esse momento não se esgotou num ano de espetáculos. O próprio Município reconhece hoje que o legado de 2012 contribuiu para uma transformação sustentada da cidade e para o fortalecimento do seu tecido cultural. Em 2024, Guimarães aprovou o Plano Estratégico Municipal Cultura Guimarães 2032, elaborado com participação da comunidade e apoio científico da Universidade do Minho, precisamente para projetar esse legado para o futuro.
É esta a diferença entre ter eventos e ter uma política cultural.
Guimarães percebeu que um grande acontecimento cultural pode e deve deixar uma estrutura, conhecimento, participação, equipamentos, públicos, agentes e uma visão de longo prazo. O seu atual plano estratégico assume, inclusivamente, a necessidade de corrigir desigualdades no acesso à cultura e de trabalhar a programação descentralizada e a participação comunitária.
Braga, depois de ter sido Capital Portuguesa da Cultura em 2025, deveria estar a discutir exatamente isso: qual é o legado que queremos deixar?
Precisamos de um Plano Estratégico Municipal para a Cultura, construído com os agentes culturais, as associações, as freguesias, as instituições de ensino, os criadores e as comunidades. Um plano que defina prioridades, estabeleça metas, identifique recursos e permita avaliar resultados.
Precisamos de apoiar a excelência artística sem abandonar a cultura popular. De valorizar o Theatro Circo e, simultaneamente, as coletividades culturais das freguesias. De promover grandes eventos e, ao mesmo tempo, garantir espaço para as pequenas iniciativas comunitárias. De olhar para o património como memória, mas também como recurso para o futuro.
Braga não precisa de mais eventos. Precisa de mais política cultural.