As cidades têm sido as verdadeiras criadoras de cultura nas épocas históricas, muito mais do que os países ou as nações. São as cidades que têm oferecido ao mundo verdadeiros polos de criação, dinamismo e pensamento. Aliás, é muitas vezes no contexto de competição entre cidades vizinhas que surgem verdadeiros rasgos de talento e ideias que moldam para sempre a nossa forma de ser e estar.
Neste sentido, basta pensar na importância das cidades gregas para a fundação da sociedade ocidental e na forma como Roma ainda hoje marca toda a nossa estrutura política e societária. Além disso, Babilónia continua a ser um ponto fundamental para a Europa e a Ásia; Florença, o berço do nosso Renascimento; Paris, a capital das ideias; Londres, a cidade da invenção; e tantas outras cidades que moldaram aquilo a que chamamos Ocidente.
Se as cidades na Europa são este polo agregador de ideias e de indivíduos capazes de concretizar o rasgo de pensamento e criar ou recriar conceitos e estruturas, a memória é o elo de coesão que possibilita esse rasgo. Assim, preservar, refletir e recordar são elementos essenciais para podermos afirmar que uma cidade tem futuro. Num mundo cada vez mais homogéneo, em que os centros das cidades correm o risco concreto de se tornarem cópias uns dos outros, afigura-se como fundamental proteger a identidade que nos torna únicos e recordar a história das ruas, das lojas, das pessoas, das associações e das empresas.
O projeto Lojas com História faz isso em Braga e a Associação Empresarial tem desempenhado um papel fundamental nessa recuperação, respeito e inovação. No entanto, existe um projeto em Braga que devemos destacar. Nuno Dias, através do “Letras de Braga”, tem mantido viva essa memória comercial que fez de Braga, na segunda metade do século XX, uma cidade viva, dinâmica e com uma identidade muito própria.
Há uma beleza nostálgica na sua forma de “caçar” letreiros publicitários, mas existe também uma certeza muito concreta: aqueles materiais produzidos para anunciar uma loja ou um produto eram uma forma de arte, num tempo em que a forma não tinha necessariamente de pensar apenas na funcionalidade, mas podia perder-se também na beleza. Hoje, persistem ainda, em algumas lojas, alguns desses letreiros que continuam a ser mágicos. Mas aqueles que já não têm uso ou estão simplesmente abandonados são transformados por este projeto, criando uma verdadeira história através de palavras e frases comerciais que também anunciam o legado de uma cidade.
A beleza associada à escolha da letra, a forma como a luz ilumina cores personalizadas à imagem que a loja pretendia transmitir e a forma gramatical cuidada mostram que, muitas vezes, não é no presente que estamos mais evoluídos e que é importante olhar para trás para discutir o conceito de gosto e de belo. As ruas, antigamente, contavam mais histórias e era preciso perceber essa história para entendermos o papel das gráficas nas sociedades, as formas de transporte da época, os produtos essenciais para os nossos antepassados e os nomes que marcaram Braga durante muito tempo. Ver as letras e ler as letras é uma forma muito especial de poder entender o passado, permitindo uma nostalgia literária ou muito ligada ao design, na forma como queremos compreender este projeto.
Acredito cada vez mais que Braga é uma cidade com futuro. Acredito também que, para isso, tem de honrar o seu passado, apoiando projetos como este.Conta-se Braga na antiga tipografia da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão com Deficiência Mental (APPACDM) e todos devem visitar.