Por ocasião da ‘romaria de São Bartolomeu do Mar’ há um momento da festa que tem algo de diferente, tradicional e – porque não dizê-lo – exotérico, no conteúdo e na forma: é o designado banho-santo. Se na imagem visual vemos um banheiro a mergulhar uma pessoa (criança ou adulto) nas águas do mar – em número ímpar de vezes – no conteúdo poderemos questionar o significado (religioso ou espiritual) e mesmo o alcance de tal recorrência nesse dia em particular (24 de agosto). Se há quem esteja – ao menos ao de leve – entronizado no facto, outros poderão questionar-se sobre o que leva, ainda hoje a recorrer a tal prática.
1. Fique claro: não há interesse algum em menosprezar o ‘banho-santo’ nem tão pouco em querer compreendê-lo no seu alcance total, pois este não é um mero ritual com roupagem só popular nem pode ser reduzido a pessoas menos esclarecidas social, cultural, religiosa e cristãmente. Embora seja uma prática que precisa de captação do sentido mais profundo, não se esgota em considerações meramente subjetivas. Por aquilo que me é dado perceber o ‘banho-santo’ tem algo mais profundo que precisa de ser refletido para ser melhor vivido, entendido e servido.
2. Eis uma singela explicação. O ritual resume-se a que as famílias levem crianças até ao mar para que o banheiro as mergulhe várias vezes, em número ímpar. A crença é que este ‘banho santo’ livra as crianças de males como o medo, a gaguez, a epilepsia ou o mal em geral. Além dos mergulhos, diz a tradição que se dê três voltas à igreja com um galo preto.
Recorde-se que o Município de Esposende apresentou publicamente, a 3 de junho de 2016, a candidatura da “Romaria de S. Bartolomeu do Mar e Banho Santo” à Lista Nacional do Património Cultural Imaterial.
3. Deixemos estes aspetos de teor etno-culturais e centramos a atenção em aspetos mais do foro do religioso-cristão. Desde logo é preciso inserir esta ritual do ‘banho-santo’ numa configuração de celebração da água. Esta é, em quase todas as grandes religiões (ou mesmo fés), um elemento essencial e quase identitário de cada expressão espiritual-religiosa.
A água tem uma dimensão religiosa significativa, pelo que em todas as religiões é símbolo da maternidade e de fecundidade. Para alguns povos, a água estará na origem da vida como é referido em muitos textos antigos, reconhecendo-lhe valor purificador e espiritual. A água é utilizada nos ritos comunitários, mas cada religião tem a sua particularidade, simbolizando habitualmente, a purificação da pessoa e a sua admissão num determinado grupo.
Para o cristianismo, a água é um dos principais símbolos sagrados e são diversas as passagens bíblicas onde é vista como sinal da vida, sinal da presença de Deus que transforma a existência humana e até sinal de eternidade. O batismo, sacramento de entrada na vida em comunhão com a Igreja de Cristo, é pela água que o ser humano passa a ser filho de Deus. Também na história simbólica do dilúvio, a água é apresentada como símbolo de transformação e renovação. Para a Igreja católica, a água é ainda considerada sinal de bênção.
A palavra água"’ aparece referida na Bíblia mais de 600 vezes, variando consoante a edição e a tradução consultadas. O termo assume um papel central nas Escrituras desde a criação (Génesis 1) até ao Apocalipse (Apocalipse 22), simbolizando tanto a purificação, vida e bênção (como no batismo), quanto o caos e a destruição (como no dilúvio).
4. Se considerarmos o ‘banho-santo’ na sua vertente mais religiosa – sem a (possível) carga depreciativa/supersticiosa – podemos e devemos cuidar de que este gesto simples possa ter sentido cristão sério e sincero. Será preciso – sobretudo para os que têm memória desse fato – desconstruir as memórias mais ou menos de infância para que o ‘banho-santo’ tenha conteúdo mais do que seja mero rito: ele pode ter força de purificação, de valorização (mesmo espiritual) da água e de comunhão com a natureza, enquanto dom divino…