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Até Constantino I, os cristãos só foram perseguidos dentro do Império Romano

Há diversas expressões do Cristianismo Antigo que, em geral, permaneceram desconhecidas da consciência do crente ocidental, porquanto a História da Igreja se centrou sobretudo no que se sucedeu dentro dos confins geográficos do Império Romano. Fruto disto, acabou-se por afunilar o entendimento de vários fenómenos, nomeadamente o das perseguições, levando-se, inclusive, ao mito de que as mesmas só ocorreram naquele contexto geográfico.

Na verdade, os cristãos, desde muito cedo, deslocaram-se para outros locais afastados do dito Império e também nessas latitudes e longitudes enfrentaram múltiplos problemas, que chegaram, em alguns casos, ao que se pode denominar de “perseguições”. E isto, antes de Constantino I – neste mito evocado para se aludir que foi por ele se ter associado ao Cristianismo que, em locais antagonistas do Império Romano, se começou a perseguir os cristãos.

Um exemplo paradigmático do dito anteriormente, e de dimensões assaz significativas, é o que ocorreu no Império Persa Sassânida nas últimas décadas do Século III. Nesse período, Kartir, sumo-sacerdote da religião ancestral persa (o Zoroastrismo), assumiu uma relevante ascendência sobre sucessivos Reis sassânidas. Fruto disto, e após a tolerância de Reis anteriores para com o Cristianismo, ele logrou levar a cabo, no seio do dito Império, uma perseguição violenta contra todas as religiões (Cristianismo incluído) distintas do Zoroastrismo.

Esta violenta repressão foi motivada, essencialmente, por razões religiosas – a vontade, assumida pelo clero zoroastrista, de que o Zoroastrismo fosse a única religião no Império Sassânida, ou, pelo menos, a única que tivesse uma aliança com o poder imperial. Todavia, há que contar com uma correlativa dimensão política secundária: a centralização do poder político também graças à rede institucional do aduzido clero, o qual, aliás e por causa disso, passou a assumir encargos até então desempenhados por juízes.

Mas não só: através de evidências arqueológicas, outros motivos são-nos conhecidos, como, por exemplo, a confiscação dos bens das minorias religiosas, para, dessa maneira, serem financiados e expandidos os templos zoroastristas, e o esforço de uma unificação cultural. Dois motivos distintos dos apontados no parágrafo anterior, sim, mas a eles claramente associados.

Para o Cristianismo, a dita perseguição teve repercussões significativas. Desde logo, foi causa para o surgir dos primeiros grandes mártires cristãos persas, e isto, como já estava a acontecer no Império Romano, fortaleceu a perseverança e a coesão das comunidades de seguidores de Jesus Cristo, mesmo quando estigmatizadas e marginalizadas. Isto, por seu lado, originou uma severa desconfiança anticristã, pois fez crer que tal facto era sinal de uma oposição, por parte dos membros de tais comunidades, ao poder real persa.

Algo de semelhante ao cenário antes descrito pode ser dito acerca do Reino da Arménia (por sinal aquele que, no ano de 301, se tornou a primeira nação a adotar o Cristianismo como religião oficial). Também aí, o Rei Tiridates III, membro de uma dinastia arsácida influenciada pelo Zoroastrismo, promoveu uma cruel repressão contra os cristãos na última década do séc. III, seja por aversões pessoais, seja em nome da proteção da identidade nacional.

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

15 agosto 2026