Há palavras que deveriam ser ensinadas nas escolas não pela frequência com que aparecem nos dicionários, mas pela falta que fazem à nossa maneira de viver. Imarcescível é uma delas. Designa aquilo que não murcha, não perde o viço nem se deixa corromper pelo tempo. Numa sociedade em que tudo deve ser novo, atualizado e rapidamente substituído, a palavra soa quase subversiva.
Vivemos sob o regime da obsolescência. Os objetos envelhecem antes de aprendermos a usá-los; as notícias perdem valor em poucas horas; as opiniões sucedem-se à velocidade de um gesto sobre o ecrã. Também os vínculos são avaliados pela excitação que provocam, não pela verdade que sustentam. Confundimos novidade com valor e permanência com imobilidade.
Esta crítica, porém, exige cautela. Nem tudo o que dura merece ser preservado. Há preconceitos seculares, injustiças tenazes e erros que atravessam gerações. A longevidade de uma convicção não demonstra a sua verdade; por vezes, apenas revela a eficácia com que aprendemos a protegê-la da realidade.
É este o desconforto que atravessa o romance O século dos imbecis, de Valter Hugo Mãe. A obra não descreve uma época sem informação, mas uma comunidade fascinada por certezas que resistem à evidência. A ignorância não nasce apenas da falta de dados. Pode prosperar no seu excesso, quando o acesso dispensa a compreensão, a convicção substitui o pensamento e o ruído oferece a ilusão de sabermos.
O imarcescível não é, portanto, aquilo que permanece intacto porque nunca foi interrogado. É o que, submetido ao tempo, à crítica e à experiência, continua a servir a vida. Não é um fóssil protegido da mudança, mas uma realidade capaz de atravessá-la sem perder a fecundidade.
Uma amizade não se torna verdadeira por ser antiga; torna-se antiga porque foi repetidamente escolhida, corrigida e cuidada. O amor não vence o tempo conservando intacta a emoção do início, mas aprendendo novas formas de fidelidade. A palavra dada só permanece digna quando não se transforma em obstinação perante o sofrimento que causa. Até as grandes tradições se mantêm vivas não quando se fecham, mas quando aceitam purificar-se do que contradiz a dignidade humana.
Talvez seja este o critério: merece permanecer aquilo que torna a vida mais humana. A justiça, porque recusa que a força tenha a última palavra. A compaixão, porque não permite que a fragilidade se transforme em condenação. A esperança, porque não confunde realismo com capitulação.
O problema começa quando aplicamos às pessoas a lógica dos objetos descartáveis. Acumulamos contactos e perdemos presença; colecionamos imagens e empobrecemos a memória; desejamos vínculos profundos, desde que não imponham a demora, o conflito e a transformação que toda a intimidade exige. Queremos ser conhecidos, mas preservamos uma saída de emergência para quando o outro deixar de corresponder à imagem que fizemos dele.
Depois lamentamos a superficialidade do nosso tempo, como se não participássemos diariamente na sua produção.
Defender o imarcescível é recuperar o gosto pelo que amadurece: obras que exigem anos, relações capazes de sobreviver ao desacordo, compromissos que não dependem do aplauso e convicções suficientemente fortes para aceitarem ser examinadas. Nem tudo o que demora está atrasado. Nem tudo o que muda progride. Nem tudo o que permanece está vivo.
Procurar o imarcescível não significa fugir da mudança. Significa discernir, no interior dela, o que merece continuar a ser cuidado. Algumas coisas duram porque ninguém ousou questioná-las; outras permanecem porque, tendo sido postas à prova, ainda oferecem abrigo, orientação e futuro.
Talvez essa seja a resposta mais digna ao século dos imbecis: não acrescentar mais uma certeza ao tumulto, mas cultivar aquilo que resiste sem endurecer, permanece sem aprisionar e envelhece sem perder a capacidade de dar fruto.