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A vitória espanhola e a democracia

Quando chega o verão, todos temos a tendência para relativizar o peso da vida e começamos a olhar para os temas que criam a nossa espuma dos dias com uma ligeireza que, muitas vezes, nos faz acreditar que tudo se faz e tudo se consegue. A pressão que exercemos sobre os dias passa a ser cada vez mais leve sob a iminência de um novo mergulho ou de um copo de vinho branco. No entanto, temos aproveitado pouco a brisa marítima para tirar conclusões sobre o estado deste cantinho atlântico.

Se refletirmos um pouco sobre algo tão leve e feliz como o futebol, percebemos que a vitória da Espanha contra uma seleção que simbolizou uma agressividade e uma brutalidade a um nível que impressionou muitos na final, representa muito mais do que um jogo de futebol: representa uma forma de organização e de vida. Fomos brindados com uma seleção cheia de talento, mas que submete esse talento à organização, à formalidade e, essencialmente, ao respeito por uma forma de ser e de aparecer. Na Espanha, não existiam foras da lei ou suprassumos que ultrapassassem o coletivo, mas isso, em nenhum momento, implicou que a criatividade não tivesse o seu lugar.

Nesta senda, se compararmos isto com a forma como nos organizamos em sociedade, parece-me claro, como muitos já disseram, que esta é uma vitória da civilidade, da organização, do respeito por aquilo que somos e por aquilo que pretendemos ser. No fundo, o futebol da Espanha representa, de certa forma, aquilo que a democracia liberal tem de melhor: o equilíbrio. Ao contrário de outros tempos, em que a Espanha era vencedora, mas ideologicamente cega, esta seleção foi diferente. Tinha controlo do jogo e, ao mesmo tempo, conseguia mudar a bola de um flanco para o outro com versatilidade. E, em todos os momentos, nunca arriscou sem ter a certeza de que tinha a sua baliza bem guardada. 

Sinto que não vivi este tempo em que a democracia representava também esta forma de jogar espanhola. A minha geração cresceu ainda num tempo de democracia saudável, mas no qual já se sentia que algo estava a mudar. Esta vitória foi sentida por mim como uma forma de perceber que esse equilíbrio pode existir em todos os campos, mesmo no futebol ou na política, e não podia deixar de relevar que, perante o aspeto grotesco que Leandro Paredes ofereceu à final, os espanhóis corresponderam com aquela sobriedade típica de verdadeiros cavalheiros: uma espécie em extinção e que tem provocado mossa na nossa forma de vida.

Além disto, importa ainda olhar para o facto de que quem levou esta Espanha para a frente não foram os mais brilhantes, os mais espetaculares, mas aqueles que, de forma trabalhosa e silenciosa, e sempre com a noção do controlo dos tempos certos do jogo, conseguiram, em todos os momentos, assegurar o sucesso da equipa: o seu meio-campo.

Esta é uma vitória do esforço com elegância, do conhecimento contra o ruído. Também aqui podemos aprender que não são aqueles que enchem o peito com truques ou retórica que levam as nossas sociedades para a frente, mas sim os que trabalham no silêncio da sua visão.

Em Portugal, existem muitos na política que têm saudades do Sebastianismo, mas que não olham para o Rei como uma figura que teve um comportamento digno de censura e que só pode ser classificado como uma demonstração de falta de rumo para o seu país. Foi um Mundial com muitas lições. No final, deixou-me feliz porque ganhou o equilíbrio e a elegância, e isso deve ser o motor da nossa sociedade.

Diogo Farinha

Diogo Farinha

6 agosto 2026