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Comprámos a máquina, esquecemos as mãos

Há uma cena que se repete há décadas nas nossas empresas. Chega uma máquina nova, moderna e cara. Fica no meio do chão de fábrica, ainda com o plástico, à espera de alguém que a saiba pôr a trabalhar. Passam semanas. E quando finalmente arranca, faz metade do que prometia, porque ninguém teve tempo de aprender o resto.

Com a Inteligência Artificial está a acontecer exatamente o mesmo. Só que desta vez a máquina não ocupa espaço, não faz barulho e não se vê. Por isso é muito mais fácil fingir que já está a dar resultado.

Em junho foi divulgado o Human Capital Trends Study, da Aon, que ouviu mais de dois mil administradores e responsáveis de pessoas em 62 países. Diz-nos que 72% das empresas portuguesas já implementaram ou estão a testar soluções de IA, praticamente a média mundial de 73%. Nada mau, para quem costuma andar atrás. Mas o mesmo estudo revela outra coisa. Em 17% dessas organizações, nenhum colaborador participou em qualquer ação de formação ou requalificação em IA nos últimos doze meses. Nenhum. Em doze meses.

E não é falta de convicção. Pelo contrário. 98% das empresas portuguesas dizem acreditar que a IA vai criar oportunidades e exigir novas competências, bem acima dos 86% da média global. Acreditamos mais do que os outros. Só que acreditar não é preparar.

Também não vale esperar que a solução venha de fora. Apenas 24% das organizações em Portugal consideram conseguir recrutar e manter pessoas com competências nesta área. O talento que falta lá fora tem de nascer cá dentro.

Isto é particularmente sério num país onde a esmagadora maioria das empresas são micro ou pequenas. Não têm departamento de formação, não têm equipa de inovação e, muitas vezes, não têm sequer alguém que possa parar meia hora para explicar aos colegas o que descobriu. E são precisamente essas que mais teriam a ganhar, porque a IA é das poucas tecnologias que premeia quem é pequeno e rápido.

O que separa quem ganha de quem apenas gasta

Um outro estudo, o Global AI Pulse da KPMG relativo ao primeiro trimestre deste ano, feito com 2.110 quadros de topo em 20 países, dá-nos a peça que faltava. 95% das empresas já têm uma estratégia de IA definida. Mas apenas 8% conseguem demonstrar retorno financeiro real daquilo que investiram. Uma em cada doze.

A explicação está no mesmo relatório. As organizações que confiam na preparação das suas equipas para trabalhar com IA têm quase quatro vezes mais probabilidade de obter benefícios significativos no negócio. Quatro vezes. Não é a licença do software que faz a diferença, são as mãos que lhe pegam. E, ainda assim, só 22% dos inquiridos acreditam ter hoje as competências necessárias para preparar a sua própria gente.

Tenho defendido aqui que a técnica deixou de ser o estrangulamento. Confirma-se, mas com uma correção importante. O novo estrangulamento não é a tecnologia, nem sequer o dinheiro. É o tempo que decidimos não dar às pessoas para aprenderem.

E a boa notícia é que este é o investimento mais barato de toda a operação. Uma tarde por mês. Um caso real mostrado por quem já o resolveu. Uma pequena biblioteca de pedidos que funcionam, partilhada por todos. Um espaço onde se pode errar sem consequências. Nada disto exige orçamentos de milhões. Exige decisão, e alguém que assuma o tema como seu.

Há aqui uma ironia que não me sai da cabeça. Falamos de máquinas que aprendem sozinhas, e o problema continua a ser o mesmo de sempre, ensinar as pessoas. A diferença é que, desta vez, o custo de não o fazer paga-se muito mais depressa.

Se a sua empresa comprou IA este ano, faça só uma pergunta na próxima reunião. Quantas horas de formação demos às nossas equipas sobre isto? Se a resposta for zero, o problema não está na tecnologia.

A máquina já cá está. Falta decidir quem lhe põe as mãos.

Guilherme Teixeira

Guilherme Teixeira

5 agosto 2026