O tempo é de mudança acelerada, com informação abundante, instantânea e aparentemente acessível a todos. A inteligência artificial (IA) e a automação desafiam formas tradicionais de aprendizagem, redefinem profissões e questionam o valor diferencial do conhecimento especializado. Neste contexto, é legítimo questionar o papel da Universidade no século XXI e, talvez mais importante: de que forma pode continuar a transformar pessoas, cidades e territórios?
Os cinquenta anos da Universidade do Minho (UMinho) constituem uma resposta particularmente eloquente. Poucas instituições tiveram um impacto tão profundo na configuração contemporânea das respetivas cidades. A UMinho não se limitou a formar diplomados ou a produzir conhecimento científico. Ajudou a redefinir a identidade de Braga e Guimarães, alterou as suas dinâmicas económicas e criou oportunidades de desenvolvimento que projetaram o Minho muito para além dos seus limites tradicionais.
No centro desta história estão as pessoas: o conhecimento que dominam e os territórios que habitam. A representação desse poder transformador encontra-se no fogo roubado por Prometeu aos deuses. Ao desafiar a ordem estabelecida para entregar à humanidade a capacidade de criar, inventar e progredir, Prometeu tornou-se uma das mais poderosas metáforas da civilização. O seu filho, Deucalião, haveria de representar a continuidade desse legado. Sobrevivente do dilúvio, encarna a reconstrução da humanidade e a preservação da memória coletiva após a catástrofe.
Raras imagens poderiam traduzir melhor a missão universitária. Produzir conhecimento é um ato prometeico. Transmiti-lo, preservá-lo e renová-lo para as gerações futuras é uma tarefa deucaliana. Não por acaso, estas duas figuras habitam simbolicamente a UMinho. À entrada do campus de Gualtar, o Prometeu Agrilhoado, de José Rodrigues, acolhe os estudantes, lembrando o preço da ousadia intelectual e da procura incessante do saber. Em Azurém, o supercomputador Deucalion — nome internacional de Deucalião —, integrado na rede europeia de computação avançada, representa a fronteira atual desse conhecimento e permite avanços em áreas tão distintas como a engenharia, a medicina, a física ou a IA.
A Braga contemporânea não pode ser compreendida sem a UMinho. Parte da sua importância histórica, religiosa e comercial esbateu-se após o liberalismo, num declínio que a proximidade ao Estado Novo pouco conseguiu reverter. Talvez o sonho quinhentista de D. Diogo de Sousa, de dotar a cidade de estudos gerais, tenha chegado com quatro séculos e meio de atraso.
Mas as diversas valências que a UMinho foi instalando pela cidade a partir de 1974 e, mais tarde, a abertura do campus de Gualtar, transformaram-na num dos mais importantes centros nacionais de ensino superior, investigação e inovação. Dezenas de milhares de estudantes, docentes e investigadores dinamizaram novos modelos de desenvolvimento, invertendo uma secular drenagem de talento humano decorrente da realização de estudos superiores noutras paragens.
A consequente estreita articulação entre universidades, centros de investigação e tecido económico-produtivo criou um ecossistema inovador e competitivo. Braga consolidou-se como uma cidade jovem, empreendedora e tecnologicamente avançada, capaz de atrair investimento, talento e projetos internacionais. Em larga medida, a cidade de hoje resulta desse encontro entre conhecimento, iniciativa empresarial e visão estratégica.
Em Guimarães, exemplo maior da industrialização portuguesa acelerada pela integração na EFTA a partir de 1960, o impacto da UMinho foi decisivo na modernização do setor têxtil e do vestuário e na subsequente diversificação do tecido económico. Os campi de Azurém e Couros e o AvePark são sinal dessa evolução, que se estende da tecnologia à cultura. As exigências da globalização foram enfrentadas com projetos inovadores que nasceram de parcerias com o município e empresas privadas. São exemplos recentes o Guimarães Space Hub e o Minho Innovation & Technology Hub (MITH), demonstrando como a proximidade universitária se tornou um fator de competitividade e diferenciação.
A conceção, singular e na altura controversa, de uma Universidade distribuída entre duas cidades permitiu trazer o ensino superior e a investigação para Braga e Guimarães. Os efeitos dessa opção fortaleceram todo o Minho e o país através de quatro vetores principais: formação qualificada; atração de investimento e inovação tecnológica; dinamização económica, urbana e cultural; e afirmação nacional e internacional.
A génese deste projeto foi turbulenta. As elites e as forças locais perceberam, cada uma à sua maneira, a importância do que estava para vir, e lutaram com determinação pela Universidade — num processo que vinha desde o magistério de Veiga Simão na Educação e no qual figuras influentes do regime como o bracarense António Maria Santos da Cunha ou o vimaranense Duarte do Amaral foram protagonistas visíveis. O auge da disputa ocorreu ao longo de 1975 e culminou no despacho ministerial 61/76, de 16 de março, que instituiu a bipolarização da Universidade, numa saga amplamente documentada pela historiografia da Instituição.
Hoje, os dois polos vivem sob o signo de outra figura da mitologia: a deusa Harmonia. A UMinho é o grande elemento coesivo entre duas cidades marcadas por uma rivalidade com raízes medievais. Nascida em grande medida de conflitos jurisdicionais religiosos, foi acentuada a partir do século XIX por uma competição político-administrativa e, mais recentemente, exacerbada pelo futebol. O futuro exige mais concertação estratégica, que pode acontecer em diferentes geometrias de articulação territorial. Os primeiros passos nesse sentido foram dados pelos executivos de Ricardo Rio e Domingos Bragança, e os atuais autarcas dão mostras de apostar num caminho mais partilhado.
A criação da UMinho e a industrialização do Vale do Ave terão sido os acontecimentos de maior impacto estrutural no desenvolvimento do Minho no último século.
Neste tempo novo de redefinir o lugar da Universidade, a UMinho e as duas cidades são convocadas para um novo ciclo de desenvolvimento e reindustrialização. Que a inspiração dos deuses se una ao legado cultural e intelectual – de Martins Sarmento e Alberto Sampaio a Maria Ondina Braga e Vítor Aguiar e Silva – e se projete na criatividade, no conhecimento e nos saberes singulares que este território é capaz de gerar.