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Por Entre Linhas e Ideias

Para que serve uma tarde em que não fazemos nada? Esta é a minha quinquagésima crónica e quero agradecer aos leitores do Diário do Minho e do nosso Minho e a todos os que me acompanham online, por todo o país. Tenho recebido mensagens, palavras de incentivo e opiniões diferentes, que também me obrigam a repensar algumas ideias. Chegar à meia centena é especial porque há leitores desse lado a acompanhar este percurso por entre linhas e ideias.

Caros leitores, hoje trago-vos uma palavra que o nosso tempo olha com desconfiança. Falo do ócio, tantas vezes confundido com preguiça ou perda de tempo. Agosto é talvez o mês certo para falar do ócio, porque temos mais tempo para abrandar e perceber que descansar não é perder tempo.

Ora, para os gregos, o ócio era scholé, um tempo livre das tarefas imediatas e dedicado ao pensamento, à conversa e à aprendizagem. Aristóteles escreveu que “trabalhamos para ter ócio”, lembrando-nos de que o trabalho não deveria ocupar toda a vida, mas abrir espaço para aquilo que nos torna mais humanos. Descansar é, então, uma forma de regressar à vida com mais serenidade.

Por sua vez, os romanos distinguiam o otium do negotium. O primeiro era o tempo da leitura, da reflexão e do cuidado de si, enquanto o segundo correspondia às ocupações e aos negócios. Hoje parece que o negotium venceu, porque até nas férias continuamos presos a horários, mensagens e tarefas. Os professores conhecem bem esta realidade, pois muitos chegam a agosto ainda a corrigir e a classificar exames, quase como se lhes tivesse sido reservado um castigo digno de Sísifo.

É precisamente contra este excesso de trabalho que Bertrand Russell escreve em A Conquista da Felicidade, onde afirma que “uma certa capacidade para suportar o tédio é essencial a uma vida feliz”. O ócio e o descanso não são, portanto, um luxo nem uma recompensa, mas uma necessidade para recuperar forças, organizar o pensamento e retomar as nossas tarefas com maior clareza e equilíbrio.

No entanto, é importante distinguir o ócio do tédio. O ócio é uma pausa escolhida e pode ser fértil, enquanto o tédio aparece quando o tempo parece não ter sentido. O filósofo norueguês Lars Svendsen mostra-nos que o tédio não nasce apenas da falta de ocupação, mas também da dificuldade em encontrar significado no que fazemos. Podemos ter muito trabalho e sentir um enorme vazio.

Talvez por isso a minha geração se lembre tão bem do Calimero, o pequeno pintainho com a casca do ovo na cabeça, sempre convencido de que tudo era uma injustiça. Também nós temos um pouco de Calimero quando agosto nos faz sossegar e começamos a lamentar que nada aconteça, que ninguém telefone e que os dias podiam ser mais animados. Por vezes, não estamos perante uma injustiça, mas diante de uma tarde livre que ainda não sabemos apreciar.

Também os Monty Python perceberam o absurdo da ocupação sem sentido. No sketch Ministry of Silly Walks, um funcionário desloca-se de forma ridícula, mas com a solenidade de quem cumpre uma missão essencial. O humor nasce desse contraste e lembra-nos que podemos fazer muito e, mesmo assim, não sair do lugar.

Meus amigos leitores, o ócio começa quando deixamos de olhar para o tempo como algo que tem de estar sempre ocupado. Na infância, muitas brincadeiras nasciam porque não havia nada preparado. Numa tarde em que não tínhamos nada para fazer, duas pedras bastavam para marcar uma baliza e uma tarde inteira ficava ocupada. Hoje, perante cinco minutos livres, procuramos logo uma aplicação qualquer no telemóvel e depois queixamo-nos de não ter tempo.

Até escrever esta crónica faz parte do meu ócio, porque é um tempo que escolho e vivo com prazer, entre pensamentos, palavras e a expectativa de chegar até aos leitores.

Nesta crónica número cinquenta, agradeço-vos a companhia e deixo-vos uma frase minha:


 

«O tempo livre só se perde quando não sabemos estar nele.»

Eugénio Oliveira

Eugénio Oliveira

5 agosto 2026