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Espanta-me ESTA filosofia e cresce-me, cada vez mais, um desejo para ela

 


 


 

Cascais abriu as portas, nos dias 13, 14 e 25-28 de junho, a ESTA filosofia que foi o Festival Espanto. Refiro-me a ela como "ESTA" porque é; de facto, uma forma diferente e inédita de a fazer, que nos mostra aquilo que verdadeiramente a filosofia deveria ser sobre: a partilha de ideias e o conhecimento.

Saber que a filosofia se pode fazer fora da academia, aproximou as pessoas entre si e ao conhecimento. Devemos, cada vez mais, permitirmo-nos darmo-nos a ela.

Durante todos os dias do festival, vários temas, e as suas relações com o desejo, foram abordados.

Com o jantar “in vino veritas” fomos convidados a refletir sobre o que a aceleração do dia a dia, o “olhar para o sítio errado” e o não olhar para o que está “debaixo dos pés” nos impede de ver.

As lições de filosofia fizeram-nos pensar sobre diferentes tipos de desejo, ele que se conjuga no plural e é (cada vez mais) um desejo de massas, com algum desenvolvimento subjetivo.

No meio do humor, aprendemos que as teorias do desejo são fundadas em diversas áreas na atualidade e como podemos impedir que o desejo saia do caminho dos carris.

Sobre o desejo para nada, ouvimos uma perspetiva aparentemente impossível de ignorar e não aceitar: uma teoria da semelhança. Torna-se mais fácil encontrar características comuns entre vários objetos/ assuntos do que as suas diferenças. Logo, também o desejo é algo semelhante a tudo o que já existe.

Mais ainda, ouvimos a ideia de “como o encantamento reimagina a vida, o sentido e o propósito em tempos de incerteza” e compreendemos melhor as diferentes tradições metafísicas na modernidade.

Acerca de Espinosa e o desejo de alegria, tivemos contacto com uma exposição da “Ética” e constatámos que a alegria indica que a nossa potência de agir e pensar foi aumentada.

À noite, cruzámo-nos com o papel do desejo na relação com a teoria de classes sociais, numa reflexão sobre “classe, identidade, memória e deslocação” e “fluência e sentimento de pertença de classe”.

No dia seguinte, assistimos à representação de Hamlet e analisamos a manifestação do desejo nela, nomeadamente a sua ambiguidade, pois parece-nos impossível distinguir o desejo e a sua impossibilidade.

No início do dia, foi-nos apresentada a ideia de como a dor, a busca pela verdade e o desejo são forças propulsoras e criativas. A arte tem, assim, o poder de transformar os sentimentos e emoções em algo nítido, compreensível, que acaba por ser um alívio.

Noutro momento, retivemos que o tempo não deve ser tomado como “medida neutra”, mas como um “sistema de poder”. O “desejo é domado através de normas temporais e questiona que formas de liberdade poderão surgir quando resistimos a elas”.

Ainda neste dia, reconhecemos o desejo como força motriz, representando a nossa “incompletude”. Mais do que uma mera necessidade biológica, ele manifesta-se através de múltiplas formas.

Na temática dos sinais do desejo erótico, foram apresentadas questões conceptuais sobre o tema e como as teorias clássicas de fazer amor compreenderam os sinais que transmitem desejo.

A preparação, aprendemos nós, para o futuro, deve consistir numa forma aprimorada e mais reflexiva no presente. Devemos investir mais no “cultivo da humanidade” e a sensação de autenticidade, de podermos controlar o nosso próprio futuro, é a forma mais evidente de tomarmos consciência do problema.

Na literatura Norte-Americana, o desejo tanto surge associado à culpa, à repressão moral e à procura de autenticidade individual, como se transforma numa força metafísica e obsessiva ou é a procura de liberdade e crítica das convenções sociais e da hipocrisia.

O desejo, também entendido como força unificadora, é a conexão fulcral entre indivíduos em si e o mundo. Mais do que uma simples falta, impulsiona pensamentos, ações e realidades.

Ainda mais teses foram apresentadas, como a do paradoxo: o desejo é a experiência de algo que ainda não existe, por isso, é ausência; ou ainda que o que falta/desejamos excede todas as coisas que conhecemos sendo o desejo um excesso.

No encerramento, pudemos aprender que o desejo tem uma dinâmica perpétua que envolve o percurso da utopia à distopia e os seus paradoxos.

Serão algumas destas ideias arrebatadoras? Outras relações com o desejo que nunca imaginamos? Pois, claro! Mas que seria a filosofia senão uma forma de nos pormos a nós e às nossas ideias constantemente à prova? Assim, deixo um último conselho: permitam-se deixar que a Filosofia vos espante!

Por último, deixo uma pergunta para refletirem: será que a existência de desejo é provada pela existência de espanto? Ou é o desejo a causa do espanto? Ou, ainda noutro cenário, estão apenas lado a lado e complementam-se?

Agora, resta-nos esperar pela próxima edição e aguardar o novo tema!


 


 


 

Beatriz Costa

Beatriz Costa

3 agosto 2026